Affonso Nunes
Referência quando o assunto é conjunto vocal na música brasileira, o Boca Livre leva ao palco do Circo Voador neste sábado (25) as canções de "Boca canta Edu" (MP,B/Som Livre), seu mais novo álbum. Com 11 faixas, o trabalho celebra o cancioneiro de Edu Lobo, um dos nossos mais completos compositores, que, de quebra, é o padrinho musical do quarteto e dividirá o palco com o Boca. Simplesmente um momento histórico.
A relação entre o grupo e o compositor vem de muito antes da formação do Boca Livre. Em 1967, dois de seus futuros integrantes — Maurício Maestro e David Tygel — integravam o Momento Quatro, grupo vocal que acompanhou Edu Lobo na histórica apresentação de "Ponteio" no III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record. A canção, parceria com Capinan, saiu vencedora daquela edição e tornou-se um marco na carreira do compositor.
Anos depois, em 1975, Maurício Maestro trabalhou como arranjador e músico no disco "Limite das águas", aprofundando ainda mais a parceria.
Quando o Boca Livre surgiu em 1978, com a chegada de Zé Renato e Cláudio Nucci ao lado de Maestro e Tygel, Edu Lobo foi o primeiro a reconhecer o valor do novo grupo. Naquele mesmo ano, ele gravava o álbum "Camaleão" e convidou o quarteto debutante para fazer os vocais em "Sanha na Mandinga". O convite se estendeu aos shows de lançamento e a uma excursão pelo Nordeste através do Projeto Pixinguinha. Edu tornou-se, assim, padrinho do Boca Livre antes mesmo de o grupo lançar seu primeiro disco, em 1979.
"Já tem um tempo que estamos pensando em fazer homenagem a ele. Não só em retribuição ao que Edu nos proporcionou, mas pela importância dele. É um compositor maravilhoso, ele foi o nosso padrinho. É também o reconhecimento de um dos grandes nomes da música não só do Brasil, mas do planeta", afirma Zé Renato.
O repertório do álbum percorre as diferentes fases da obra de Edu Lobo seguindo a ordem cronológica de seus principais parceiros: Vinicius de Moraes, Capinan, Ronaldo Bastos, Paulo César Pinheiro, Cacaso, Chico Buarque e Aldir Blanc. A seleção, segundo o grupo, nasceu de uma "memória afetiva" de décadas de convivência. Maurício Maestro, que assina os arranjos, recuperou canções com as quais trabalhou diretamente ao longo dos anos, como "Uma vez um caso" (do disco "Limite das águas") e "Choro bandido" (do musical "O corsário do rei"). Outras faixas vieram naturalmente: "Candeias" e "Viola fora de moda", por exemplo, o Boca Livre canta desde o primeiro show.
"Veneta" (parceria com Chico Buarque de 2001) sinaliza a intenção do grupo de trabalhar um repertório que passa na tangente dos grandes sucessos do padrinho. O coco de embolada da trilha do musical "Cambaio", foi gravado apenas com vozes — inicialmente a capella — e o pandeiro de Marcelo Costa.
"Arrastão", o clássico que projetou Edu Lobo nacionalmente ao vencer o I Festival da Música Popular Brasileira em 1965 na voz de Elis Regina, quase ficou de fora. O compositor impôs uma condição quando o grupo foi à sua casa apresentar o repertório: nada de "Arrastão". "Esta música nunca mais toquei, nunca mais gravei. Não quero ouvir esta música", avisou. Foi preciso Maurício Maestro insistir, mostrar que seria uma versão completamente diferente, para convencê-lo. "Ele ouviu e gostou do meu arranjo", revela. A gravação final, com cordas orquestradas por Maestro, piano de João Carlos Coutinho e a voz discreta do próprio Edu, abre a tampa do disco e o resultado reflete a categoria vocal do Boca.
Produzido por João Viana, "Boca canta Edu" conta ainda com participações especiais: o MPB4 em "Ave Rara", parcedia de Edu com Aldir Blanc, retomando uma conexão iniciada há mais de quarenta anos; e a cantora Vanessa Moreno em "Corrida de jangada" (com Capinan), eleita por Edu como uma de suas intérpretes favoritas da atualidade. Destaque também para "Candeias", única faixa em que Edu Lobo assina música e letra, numa gravação que recupera a introdução original — aquela em que o autor recita "E caso ainda exista aquela rua, aquelazinha do sobrado em frente ao mar..." — suprimida em registros anteriores de intérpretes como Gal Costa.
A apresentação marca a estreia da turnê, que deve passar por São Paulo em setembro. "Nossa ideia é viajar com a participação dele", adianta Zé Renato. Que bom!
SERVIÇO
BOCA LIVRE CONVIDA
Circo Voador (Rua dos Arcos, s/nº, Lapa)
25/7, a partir das 20h (abertura dos portões)
Ingressos a partir de R$ 160 e R$ 80 (meia)
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