Correio da Manhã
Música

Uma orquestra, dois olhares

Orquestra Petrobras Sinfônica lança dois álbuns que celebram solistas e memória musical

Uma orquestra,
dois olhares

Affonso Nunes

Dois álbuns, duas faces do mesmo cuidado artístico. A Orquestra Petrobras Sinfônica acaba de disponibilizar nas plataformas digitais, neste mês de julho, registros que, embora distintos em formação e repertório, compartilham um DNA comum: a aposta na qualidade dos intérpretes que integram seu corpo estável e a preservação de interpretações ao vivo como documento histórico.

O primeiro deles, "Lumière — Obras Concertantes para Clarineta e Viola", é um testemunho sonoro do que acontece quando o palco e a plateia se encontram. Todas as faixas foram gravadas ao vivo em concertos regidos por Isaac Karabtchevsky, nome central da regência brasileira, com a clarineta de Cristiano Alves e a viola de Dhyan Toffolo como solistas. O repertório percorre obras de Max Bruch (o "Concerto Duplo em Mi Menor, Op. 88"), Jean Françaix e Claude Debussy — este último representado pela "Première Rapsódia para Clarineta e Orquestra", peça de 1910 que já anunciava os ares modernistas do século XX.

"Lumière", "luz" em francês, costura o conceito do disco: as obras transitam entre o obscuro e o colorido, entre sombras e claridade, espelhando a própria natureza do instrumento solista. "O artista se alimenta de desafios. Em 2009, tive a honra de atuar como solista junto à Orquestra Petrobras Sinfônica, sob a regência de Isaac Karabtchevsky, em um programa dedicado à música francesa do século XX. A rica sonoridade deste álbum somente foi possível graças ao magistral trabalho de captação de áudio de Eduardo Monteiro. Que todos possam percorrer este caminho de luzes, cores, sombras e belas texturas reveladas em 'Lumière'", conta Cristiano Alves, que já havia se apresentado como solista da orquestra dezessete anos antes, no mesmo tipo de programa.

O segundo lançamento do mês inaugura uma série de música de câmara batizada de "Coleção Armando Prazeres", em homenagem ao idealizador e fundador da Orquestra Petrobras Sinfônica. Armando Prazeres nasceu em 8 de agosto de 1934, em Arouca, Portugal. Veio ainda criança para o Rio de Janeiro, onde descobriu a música no Seminário São José. Estudou regência coral com René Brighenti na Escola Superior de Música de Estocolmo, estagiou na Capela Sistina, no Vaticano, e aperfeiçoou-se na Academia de Santa Cecília, em Roma, com Hanz Swarowsky e Franco Ferrara. De volta ao Brasil, foi assistente de Raphael Baptista na Orquestra Sinfônica Universitária e tornou-se pioneiro na criação de corais empresariais — Petrobras, Correios, Telerj, UERJ, entre dezenas outros. Em 1972, fundou a Orquestra Pró-Música, embrião do que viria a ser a Orquestra Petrobras Sinfônica. Em 1980, regeu a missa campal do Papa João Paulo II no Aterro do Flamengo, com a OSB e um coral de duas mil vozes, conquistando o apelido de "Maestro do Papa" e um telegrama de agradecimento pessoal de Sua Santidade.

O primeiro volume traz o "Quarteto de Cordas, Op. 76, nº 3, 'Imperador' (Kaiser)", de Franz Joseph Haydn, interpretado por músicos da própria orquestra: Ivan Scheinvar e Daniel Albuquerque nos violinos, Tiago Vieira na viola e Mateus Ceccato no violoncelo. Haydn compôs cerca de setenta quartetos de cordas ao longo da vida. Os seis que formam o Op. 76 estão entre os últimos e mais celebrados — escritos entre 1796 e 1797, no auge de sua maturidade criativa, logo após as triunfais temporadas em Londres. O apelido "Imperador" vem do segundo movimento, um conjunto de variações sobre uma melodia que o próprio Haydn compusera para o imperador Francisco II: "Gott erhalte Franz den Kaiser" ("Deus salve o imperador Francisco"). Anos mais tarde, o mesmo tema seria adotado como hino nacional alemão, numa ironia histórica que atravessa séculos. Considerado uma das obras-primas do repertório de câmara, o nº 3 rendeu a Haydn o título de "Pai do Quarteto de Cordas". Começar uma série de câmara com essa obra é afirmar, desde o primeiro acorde, o compromisso com a tradição e a excelência — exatamente o espírito que Armando Prazeres imprimiu à orquestra que criou.

Juntos, "Lumière" e o primeiro volume da "Coleção Armando Prazeres" revelam uma orquestra que investe em duas frentes complementares, sempre valorizando o músico instrumentista.