Correio da Manhã
Música

Carlos Malta, 50 anos esculpindo o vento

Instrumentista começou a tocar flauta aos 15 anos, mas sua carreira se transformou radicalmente quando integrou a banda de Hermeto Pascoal

Carlos Malta, 50 anos esculpindo o vento
Carlos Malta Crédito: Maria Mazzillo/Divulgação

Aos 15 anos, o carioca Carlos Malta tocava pela primeira vez uma flauta transversa e talvez não dosse capaz de imaginar que com aquele instrumento iria redefinir caminhos na música instrumental brasileira. O multi-instrumentista comemora 50 anos de carreira com uma série de projetos: em maio tocou com Dave Matthews em concertos pelos Estados Unidos, está relançando seu primeiro álbum solo, "O Escultor do Vento" (1997), e fará apresentações com a Brasil Jazz Sinfônica. "Comemorar 50 anos de música instrumental nesse país é muita resistência", disse Malta em entrevista recente à Rádio Nacional.

O músico começou a atuar profissionalmente aos 18 anos ao lado de artistas como Johnny Alf, Antônio Carlos & Jocáfi e Maria Creuza. Mas foi em 1981, quando ingressou no grupo de Hermeto Pascoal (1936-2025), que sua musicalidade aflora absurdamente. Durante doze anos, até 1993, Malta integrou uma das formações mais criativas da música mundial, período que aprofundou sua visão sobre improvisação, composição e liberdade criativa. A convivência com o "bruxo" Hermeto consolidou uma base artística que se tornaria fundamental para toda sua produção futura.

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Mentor musical de Carlos Malta, Hermeto Pascoal foi influência marcante na obra do multi-instrumentista | Foto: Marian Starosta/Divulgação

"Com o Hermeto, foram 12 anos. O espírito desse músico que eu carrego dentro de mim permeia toda essa coisa que me movimentou por aí, por esse mundo da música. A gente que vive com ele aprende a fazer as melhores bruxarias. A música é o nosso elemento, é o nosso universo", comenta, ao falar do velho mestre.

Em 1994, Malta criou o Pife Muderno, projeto que se tornou divisor de águas ao levar o pífano — instrumento historicamente associado às manifestações populares nordestinas — para a seara do jazz sem descaracterizar suas raízes.

Ao longo da carreira, Malta desenvolveu extensa pesquisa sobre instrumentos de sopro, dominando flautas, saxofones, clarinetes, pífanos e instrumentos tradicionais de diferentes culturas. Essa investigação resultou em uma sonoridade imediatamente reconhecível. Seu trabalho alcançou projeção internacional: apresentou-se em importantes festivais e centros culturais pelo mundo e construiu parcerias com Pat Metheny, Marcus Miller, Charlie Haden, Egberto Gismonti, Lenine, Edu Lobo, Guinga e Dave Matthews Band, transitando com naturalidade entre a música brasileira, o jazz e a world music.

A pesquisa sobre as matrizes culturais brasileiras também marca sua obra. Essa investigação está sintetizada no documentário "Xingu Cariri Caruaru Carioca" (2015), que aproxima tradições indígenas, culturas populares nordestinas e a produção musical urbana para refletir sobre a formação de nossa identidade sonora.

Depoimentos de colaboradores de longa data revelam a dimensão de sua influência. "Carlos Malta o músico de excelência multi-instrumentista compositor arranjador que tanto colaborou e tem colaborado com a minha carreira eu só posso agradecer a convivência com esse artista genial. Ele tem esse reconhecimento por onde ele passa ele deixa a marca dele é um orgulho da música brasileira é um orgulho de ser seu amigo", destaca Guinga.

Edu Lobo destaca Malta como "mestre da música brasileira", formado pela experiência com Hermeto. Lenine relembra encontros nos anos 1980 e descreve uma "amizade grande e profunda" marcada por "intercâmbio musical muito grande". Moacir Luz conta que o conheceu tocando flauta entre as mesas de um teatro, com o público atrás dele "feito uma rabiola que leva a pipa para o mais alto do céu". Hamilton de Holanda o chama de "escultor do vento" e celebra sua "criatividade, liberdade e verdade". Nelson Faria o descreve como "dos músicos mais talentosos e criativos" que conheceu, um "improvisador de excelência". Paulinho Moska, que o admirava desde a adolescência ouvindo discos de Hermeto. "E era sempre uma epifania porque todos os músicos da banda também eram geniais. Eram como super-heróis com poderes sobrenaturais, artistas que pareciam tocar a música mais linda e difícil de um jeito mais fácil e mais lindo. E entre eles estava o Carlos Malta", recorda.

Em 2026, Malta segue em atividade intensa. Apresenta-se com a Brasil Jazz Sinfônica em São Paulo, algo que lle motiva bastante. "Orquestra sinfônica para mim é uma das coisas mais importantes que existem. Porque justamente tá ali, tá tudo ali, os instrumentos estão todos ali. É lindo demais", afirma.