Correio da Manhã
Música

Três vezes Bethânia

Diva da canção brasileira. Maria Bethânia tem seu aniversário festejado com coleção de coletâneas lançada pela Biscoito Fino

Três vezes Bethânia

Affonso Nunes

Por ocasião de seu aniversário de 80 anos, Maria Bethânia (e o público, clato) foram presenteados em grande estilo. A Biscoito Fino lançou nas plataformas digitais três compilações temáticas que organizam sua obra em eixos fundamentais e sua carreira: a fé, as novelas e os encontros com outros artistas. São 80 anos de vida e mais de seis décadas de carreira condensadas em mapas mapas afetivos que contam histórias diferente sobre a mesma intérprete.

A mais interessante talvez seja "Encontros", que traz como carro-chefe um registro até então inédito no mercado: o dueto de Bethânia com seu sobrinho Zeca Veloso para "Chega de Saudade", o clássico de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A faixa foi gravada originalmente para uma campanha publicitária da Hering em 2021 e nunca havia sido disponibilizada comercialmente.

É o tipo de raridade que justifica uma compilação por si só, mas o álbum não para nisso. O repertório reúne parcerias notáveis da cantora com artistas como Alcione ("Sem Mais Adeus"), Angela Ro Ro ("Fogueira"), Gal Costa ("Minha Mãe"), Gloria Groove ("O Meu Amor"), Alceu Valença ("De Janeiro em Janeiro") e Chico César ("A Força que Nunca Seca"), entre outros. Há ainda um registro familiar precioso: "Pérola Negra", com Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso.

A segunda compilação, "Novelas", resgata a relação da cantora com a teledramaturgia brasileira. Bethânia sempre teve suas canções requisitadas para trilhas dos folhetins televisivos, como aconteceu em "Sinhá Moça" (2006), "Pantanal" (2022), "Velho Chico" (2016), "Salve Jorge" (2012) e "Êta, Mundo Bom!" (2016), para citar alguns exemplos. O destaque fica por conta da versão de "Trocando em Miúdos", que permanecia inédita nas plataformas digitais. A faixa integrou a trilha sonora de "Insensato Coração" (2011). Em todos esses registros fica claro que a presença de uma cantora como Bethânia na trilha deixa de ser pano de fundo para dar densidade dramatúrgica às cenas da trama.

E "Fé" é a compilação que talvez mais se aproxime do universo de Bethânia, que sempre fez da religiosidade um tema recorrente em sua obra musical. O repertório não se fecha numa crença e reforça todo o sincretismo que esta artista baiana carrega. Inclui "Ave Maria" (Caetano Veloso), "Canto de Oxum" (Toquinho e Vinicius de Moraes), "A Dona do Raio e do Vento" (Paulo César Pinheiro), "Santa Bárbara" (Roque Ferreira) e "Oração de Mãe Menininha" (Dorival Caymmi). O catolicismo e as religiões de matriz africana convivem em harmonia no coração de Bethânia, o que serve de conselho aos que demonizam a fé alheia.

As três compilações foram idealizadas pelo jornalista Renato Vieira, responsável pela pesquisa musical e seleção do repertório e que teve a sabedoria de reafirmar que Maria Bethânia é intérprete de voo próprio. É incontestavelmente, ainda aos 80 anos, a maior cantora viva do Brasil.