Correio da Manhã
Música

Influência boase assume (com gosto)

Moyseis Marques retorna ao Tival Petrobras com show inteiramente dedicado à obra de Chico Buarque, aniversariante da semana

Influência boase assume (com gosto)
Fã e ídolo: Moyseis Marques retoma neste sábado o espetáculo em que passeia pela obra de Chico Buarque Crédito: Elena Moccagatta/Divulgação

Affonso Nunes

Moyseis Marques sobe ao palco do Teatro Rival Petrobras neste sábado (20), às 19h30, com um show que já se tornou constante em sua trajetória artística. Trata-se de "Moyseis Marques Canta Chico Buarque". É a confirmação daquilo que o escritor e biógrafo Ruy Castro vaticinou certa vez quando afirmou que não qualquer pecado em ser influenciado quando quando as influências são as melhores.

A intimidade entre o cantor mineiro, criado na Vila da Penha, e a obra de Chico Buarque não é recente. Ela começou a ganhar contornos mais nítidos quando Moyseis viveu o personagem Max Overseas — o ladino contrabandista da "Ópera do Malandro", uma versão abrasileirada que Chico concebeu para a "Ópera dos Três Vinténs", de Bertold Brecht —, no musical que marcou sua trajetória como ator. Desde então, essa relação se aprofundou através de participações em projetos audiovisuais, encontros memoráveis e este espetáculo dedicado integralmente o palco à obra do compositor.

Além de ter interpretado Max Overseas, Moyseis participou do documentário "Chico, um artista brasileiro", dirigido por Miguel Faria Júnior, e vivenciou momentos raros de encontro direto com o compositor. Um desses momentos ocorreu no saudoso Semente, bar emblemático da Lapa que funcionava como ponto de encontro de músicos cariocas. Numa noite, Chico surgiu em meio a plateia para cantar com Moyseis "Aquela Mulher", da trilha de "Ópera do Malandro", e "Injuriado", do álbum "As Cidades" (2006).

"Chico é um dos meus super-heróis. Ele é um cara muito completo, que transita com muita naturalidade por gêneros como samba, valsa, xote, toada, balada. É um material muito rico para ser explorado por quem se interessa por música brasileira", disse Moyseis em entrevista quando lançou o projeto, há oito anos.

A conexão se intensificou ainda mais quando Moyseis gravou "Subúrbio", canção que Chico havia registrado originalmente em seu álbum "Carioca" (2016). Moyseis incluiu sua versão no CD/DVD "Passatempo", e posteriormente convidou Chico para gravar a música em dueto — convite prontamente aceito pelo compositor. Essa colaboração marca um ponto de inflexão: não se trata apenas de um intérprete que canta a obra de outro, mas de uma conversa musical entre dois artistas que compartilham sensibilidade e propósito.

A influência entre artistas pode ser inconsciente e a semelhança não tem a ver com o gênero de música que eles cantam, mas com certo jeito de cantar ou uma sonoridade em comum. Moyseis não imita Chico — procura sentir a essência de sua obra e com ela dialoga, reinterpretando-a sob o filtro de sua própria voz e sensibilidade.

Neste espetáculo Moyseis terá a companhia João Bittencourt (piano e acordeom), Luis Louchard (contrabaixo) e Gabriel Guenther (bateria). O repertório transita por diferentes gêneros que compõem a obra de Chico — sambas, baiões, xotes, canções, valsas e até um blues. Entre as composições que integram a apresentação estão "Paratodos" (que Moyseis incorporou a seus shows de forró), "Biscate" e "Mil perdões", além de surpresas que o cantor prepara para a ocasião.

O show acontece um dia após o aniversário de Chico, que completa 82 anos nesta sexta-feira (19). Mas quem ganha o presente é o público ao congerir um diálogo sincero e genuíno entre influenciado e influenciador.

SERVIÇO

MOYSEIS MARQUES CANTA CHICO BUARQUE

Teatro Rival Petrobras (Rua Álvaro Alvim, 33 — Cinelândia)

20/6, às 19h30

Ingressos a partir de R$ 60