Affonso Nunes
Especial para o Correio da Manhã
Dois dos maiores nomes da música brasileira do último século ganham homenagem especial no Theatro Municipal nesta quarta-feira (17), quando a Orquestra Sinfônica do TMRJ dedica um concerto a Radamés Gnattali e César Guerra-Peixe, marcando os 120 anos de nascimento do primeiro. Sob regência do maestro titular Felipe Prazeres, o programa integra a série Música Brasileira em Foco.
Radamés Gnattali nasceu em Porto Alegre em 27 de janeiro de 1906, em família de músicos. Seu pai era imigrante italiano que tocava piano, fagote e contrabaixo; sua mãe era pianista e professora. Batizado em homenagem à ópera de Verdi, Gnattali recebeu educação musical desde cedo, estudando piano com a mãe. Aos 9 anos, já dirigia uma orquestra juvenil com arranjos de sua autoria. Aos 14, ingressou no Conservatório Musical de Porto Alegre, onde aprofundou seus estudos de piano. Sua trajetória, porém, o levaria a romper as fronteiras entre o erudito e o popular — uma divisão que ele próprio negava existir.
Formado em piano clássico, Gnattali trabalhou como músico em orquestras populares, experiência que moldou sua linguagem composicional única. Compôs cerca de 400 obras para diferentes formações instrumentais, transitando com naturalidade entre a música de concerto e a música popular. Sua contribuição fundamental foi justamente essa diluição das fronteiras entre os dois universos. Em entrevista de 1986, Gnattali afirmava não ver distinção entre música popular e erudita — para ele, havia apenas música bem ou mal feita. Essa filosofia permeia toda sua obra, tornando-o um dos compositores mais originais da música brasileira.
A série Brasilianas representa o ápice dessa síntese. Composta a partir de 1944, a série reúne obras que levam para a sala de concerto temas infantis, ritmos nordestinos e elementos da cultura popular brasileira. A Brasiliana nº 1, apresentada neste concerto, foi a primeira dessa sequência que se tornaria referência em sua trajetória. Escrita para orquestra sinfônica, a obra conquistou projeção internacional rapidamente: em 1946, foi executada pela Orquestra da BBC de Londres e posteriormente integrou o repertório de formações como as orquestras de Chicago e da Filadélfia. O sucesso não foi casual — Gnattali havia criado uma linguagem que falava ao público erudito sem abandonar a vitalidade da música popular.
César Guerra-Peixe, nascido em Petrópolis em 1914, representa outra vertente do nacionalismo musical brasileiro. Violinista, compositor e pesquisador, Guerra-Peixe dedicou-se à exploração da música folclórica e popular como matéria-prima para a composição erudita. Sua obra marca a fase nacionalista da música brasileira, período em que compositores buscavam incorporar elementos autênticos da cultura nacional em estruturas de concerto.
O programa abre com "Museu da Inconfidência", poema sinfônico em quatro movimentos composto por Guerra-Peixe em 1972. A obra retrata a emoção do compositor diante dos objetos expostos no museu de Ouro Preto, transformando a experiência histórica em linguagem musical. Segue-se o "Concertino para Violino e Orquestra de Câmara", uma das composições mais célebres de Guerra-Peixe. Dedicada ao violinista Cussy de Almeida e à Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco, a peça traduz em linguagem de concerto elementos da música folclórica nordestina, transportando para o violino a sonoridade pungente da rabeca e da viola. Ricardo Amado, violinista convidado, será o intérprete dessa obra que exige tanto virtuosismo técnico quanto sensibilidade para captar as nuances da música popular.
A segunda parte celebra Gnattali com a Brasiliana nº 1. Neste concerto, a obra ganha novo significado: não apenas como marco histórico da música brasileira, mas como símbolo de uma trajetória que provou ser possível unir o popular e o erudito sem hierarquias, sem concessões, apenas com autenticidade.
"Este programa reúne dois nomes ligados ao Rio de Janeiro e fundamentais para a música brasileira do século XX. Em um ano que comemoramos os 120 anos de nascimento de Radamés Gnattali, celebramos sua contribuição singular para a construção de uma linguagem musical autenticamente brasileira. Ao lado de César Guerra-Peixe, sua obra dialoga com a história e com a diversidade cultural do país, oferecendo ao público um panorama rico e vibrante da música brasileira de concerto", destaca o maestro, titular da Orquestra Sinfônica do TMRJ desde 2022, é um dos fundadores da Academia Juvenil, projeto que oferece formação gratuita para jovens de 15 a 20 anos oriundos de escolas de música e orquestras comunitárias.
SERVIÇO
MÚSIVA BRASILEIRA EM FOCO
Theatro Municipal (Praça Floriano s/nº)
17/6, às 19h
Ingressos entre R$ 15 e R$ 60
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