Correio da Manhã
Música

Passado não se repete. Se reinventa

Trio que revolucionou a música instrumental brasileira nos anos 1970, Azymuth se apresenta no Blue Note em sua ova formação

Passado não se repete. Se reinventa

Affonso Nunes

Quando José Roberto Bertrami, Alex Malheiros e Ivan "Mamão" Conti se encontraram nos bares de Copacabana nos anos 1960, ninguém imaginava que aquele trio de músicos de estúdio — que acompanhava artistas como Marcos Valle — estaria redefinindo o que era possível fazer com jazz, samba, bossa nova e eletrônica. Mas foi exatamente isso que o Azymuth fez desde sua formação em 1973, e continua fazendo até hoje, driblando a morte e o tempo. Neste sábado (13), a banda se apresenta no Blue Note Rio em sua nova fase, com a formação renovada após a morte de dois de seus fundadores.

O atual prestígio de projetos instrumentais na cena musica brasileira deve muito ao Azymuth. Desde o álbum de estreia "Azimuth" (1975), lançado pela Som Livre, o trio ofertou uma linguagem sonora que trabalhava elementos do samba, da bossa nova, do soul e do jazz fusion com enorme precisão. O diferencial estava na eletrônica — teclados sintetizados que Bertrami manipulava com criatividade. A bateria de Mamão dialogava com ritmos brasileiros sem perder a sofisticação do jazz, e o baixo de Malheiros que amarrava tudo com uma lógica harmônica impecável.

A carreira internacional da banda começou nos anos 1980, quando se mudaram para os Estados Unidos e conquistaram uma base de fãs que vai desde colecionadores de vinil até produtores de hip-hop contemporâneos que sampleariam suas faixas décadas depois. O tema "Jazz Carnival" marcou essa fase de expansão global.

Mas o Azymuth nunca deixou de ser carioca. Seus álbuns — 24 no total — carregam a assinatura daquela Copacabana boêmia dos anos 1960, aquele encontro casual de músicos que se tornaria referência da música instrumental brasileira.

A morte de Bertrami em 2012 poderia ter encerrado a história. Em vez disso, Alex Malheiros e Ivan Conti recrutaram Kiko Continentino. Novo baque quando Mamão faleceu em abril de 2023, aos 76 anos. Pensou-se que seria o fim da banda. Negativo! Mas Malheiros, aos 80 anos, decidiu seguir adiante. "Eu e Mamão tínhamos feito um pacto de que, se algum de nós dois fizesse a passagem, o outro seguiria em frente", disse o músico a O Globo, meses após a perda do amigo.

A formação atual — Alex Malheiros no baixo, Kiko Continentino no sintetizador e Renato Calmon na bateria — mantém a fórmula intacta: eletrônica sofisticada, ritmo brasileiro e uma sensibilidade harmônica que poucos grupos conseguem sustentar por mais de cinco décadas. O álbum "Marca Passo" (2025) prova que o Azymuth segue relevante, com faixas como "Fantasy '82" e "O Mergulhador" que mantêm a essência do som original enquanto abraçam sonoridades modernas. Malheiros, um dos melhores contrabaixistas da música brasileira, traz com o passar dos anos a sabedoria de não repetir o passado. Mas dialoga com ele.

SERVIÇO

AZYMUTH

Blue Note Rio (Avenida Atlântica, 1.910, Copacabana)

13/6, às 20h e 22h30

Ingressos a partir de R$ 60