Neste sábado (6), Zeca Pagodinho vai ao Maracanã para dar início a uma turnê mais do que especial para os fãs do samba raiz. Ao lado de Alcione e Jorge Aragão, Zeca vai rodar o país ao longo de 2026 com apresentações que vêm atraindo grande interesse popular, dada a relevância dessa trindade para a cultura brasileira.
Na reta final de maio, o sambista foi reconhecido na Câmara Municipal de Duque de Caxias, que protocolou um Projeto de Lei para reconhecê-lo como Embaixador da Cultura de Duque de Caxias. No PL proposto pela vereadora Fernanda Costa (MDB), a honraria se dá como "reconhecimento da inestimável contribuição do sambista à cultura brasileira e, em especial, à sua forte ligação com o município". O projeto ainda passará por votação, mas já é quase garantido que será aprovado. Além de músico consagrado, Zeca é um grande incentivador da cultura e educação no município por meio do Instituto Zeca Pagodinho, escola de capacitação artística e cultural para jovens da região.
Na última quinta-feira (28), durante um painel abarrotado de gente no palco principal do Rio2C, um dos maiores eventos de criatividade da América Latina, Zeca foi tema de uma conversa leve sobre sua vida, carreira e sobre suas saudades. A sala ficou cheia para ouvir o que sambista tinha a dizer. E Zeca, é claro, falou sobre sua ligação com Xerém.
"Parece que quando eu não vou lá [Xerém], eu fico doente. Eu sinto todas as dores do mundo. Sem Xerém, eu não tenho nada. Nada, nada. Tenho minha casa lá. Hoje deve ter 23 caixas de cerveja, mais umas cinco de vinho, refrigerante pras crianças. Aí eu chego e chamo um amigo ou outro, ficam no quintal, montam no cavalo, enfim, aí dá almoço pra todo mundo. Meus amigos vão tudo pra lá. A comida lá de fora é uma, lá de dentro, a da Mônica, é estrogonofe, essas coisas, né? Lá de fora é galinha com quiabo, pé de galinha com inhame, mocotó... É, e as crianças comem tudo, os garotos lá comem tudo. Meu neto, Noah, dizia que não gostava de galinha com quiabo, de manga. Mas nunca tinha provado. Aí viu os amigos dele comendo e decidiu provar", contou.
O painel foi mediado pela atriz e apresentadora Regina Casé, amiga pessoal de Zeca. Com a intimidade proporcionada pelos anos de amizade, ela disse que todo mundo vê o lado cômico do cantor, mas que sente que ele carrega uma tristeza, como uma saudade constante.
"Sinto muita saudade [da vida de antes]. Muita. Muita. Por exemplo, não dá para ir no pagode do Moacyr Luz. E como eu tô doido para ir lá! Mas como é que eu vou lá? Todo mundo quer foto o tempo todo. Aí me botam em um lugar reservado... Aí que é pior! Se você nega, falam: 'Olha lá, tá metido pra caramba!' É... é uma merda! Eu sinto falta de poder sair, ir num mercado, ir no boteco... Isso aí eu ainda tenho em Xerém. Que eu posso ir para a praça, conversar com meus amigos, ouvir conversa fiada, ler jornal... Aí eu conto uma piada aqui, outro me sacaneia de lá, eu sacaneio o outro ali... É isso, em Xerém eu tenho isso", contou.
Criado no Rio de Janeiro 'raiz', Zeca comentou sobre as diferenças que notou no desenvolvimento da cidade na transição do século XX para o XXI. Carregado por um ar nostálgico, e meio melancólico, ele disse que queria poder reviver essa época da vida.
"Eu tava falando isso ontem com um amigo. Eu fui em Irajá esses dias, e pra outros lugares que eu costumava ir, e hoje em dia tá cheio de grade nas janelas, nas ruas que a gente vinha de madrugada, bêbado, com violão nas costas. Não vejo mais isso, essa segurança da vida. Na Abolição, que era o bairro da noite, não tem mais nada. Tem o Sombola, mas os outros acabaram. Não tem mais nada. Acabou, o subúrbio acabou. Irajá, onde eu vivia muito a vida, vi muitos amigos lá. Fechou tudo. 'Passa lá', 'Tem que dar a volta', 'Agora você tem que ir pela outra rua, porque aqui fecharam'... Agora só tem um monte de condomínio no bairro. Você fica apertado por lá... Até Del Castilho, aonde vagabundo não ia... Os valentes de lá morreram e agora tudo cheio de grade", lamentou o sambista, que falou também sobre a situação dos sambas dos morros cariocas.
"É, isso que eu tava falando com o amigo ontem. 'Pô, vamos na Mangueira? Lá no 12? É, tomar um mocotó, tomar uma birita?'. Não dá mais. 'Vamos na Serrinha?' Não dá mais. 'Vamos no Morro do Foguete?'. Não dá mais. Como é que pode? Um morro que tinha samba, que tinha vida... Tinha uma Tendinha lá, onde rolava um pagode, o pessoal beliscava, bebia... Morro do Macaco, pô... Não tem mais nada", completou.
Bastante direto em suas falas, Zeca Pagodinho é um sujeito à moda antiga, que já enfrentou situações que poderiam ser malvistas por outras personalidades. O famoso "cancelamento" que existe na internet. Porém, seu jeito autêntico é tão carismático que até situações complicadas são abraçadas como um traço cultural de um representante daquele Rio Antigo. Perguntado se tinha medo de ser "cancelado", Zeca foi direto: "não".
"Olha, eu não mexo em nada de internet. Odeio. Meus netos querem me ensinar, mas eu não quero aprender. Não tenho nem WhatsApp. Tenho medo de me mandarem nude, que aí dá problema com a Mônica. Ela vai achar que fui eu que pedi. Aí, hoje em dia tudo é processo, bullying. Outro dia, um cara veio me filmando no shopping. Aí chegou e falou: 'tira uma foto comigo'. Eu respondi 'uma hora dessas?' e fui embora. Pronto. Disseram que o vídeo explodiu. Minha filha falou que eu ia ser cancelado. Eu perguntei: 'o que é isso?'. Ela disse que iam falar mal de mim na internet. Até parece que eu ligo pra isso. Quando eu virei Zeca Pagodinho não tinha nem internet. Eu não devo nada à internet", disse Zeca, que compartilhou sua relação com outras tecnologias.
"Meus netos usam Alexa e esses troços. Eles usam, me mostram, assim, mas eu não me interesso por isso. Não quero aprender. Eu não consigo ligar uma televisão. Se não tiver ninguém lá em casa... Às vezes, o Noah vai lá, aí bota aqueles jogos dele, aí depois ele vai embora e não volta pro normal. Cara, aquilo é um grilo... Dá vontade de acordar ele: 'Pode ir lá na sala botar minha televisão?!'. E não mexe mais na minha televisão. Tem televisão no quarto, no quintal, no salão, mas a sala é a minha TV. Aí tem HDTV, HD... MTV... HDMI... Porra, aí que complica tudo. Falo: 'cara, não mexe em nada da minha sala. A minha sala é minha' [risos]".
Mesmo longe das tecnologias, Zeca tenta passar algo para seus filhos e netos, que são seus valores. Ele pode não estar por dentro das principais pautas da vez, mas se mostrou bastante antenado em seus valores familiares. E revelou que todos são bem-vindos em sua casa, contanto que não toquem em um assunto: política.
"Eu faço que nem meu pai. Meu pai não falava nada, ele mostrava pra gente o que era certo fazendo, sendo como ele era. E é assim que eu faço com o Noah, os outros já são maiores... Sendo amigo deles, tá tudo bem. A gente vive com todas as formas, sexos e crenças. Eu tô de bem com o mundo, com os meus amigos. Políticos? Todos vão lá na minha casa. Se bem que lá é proibido falar de política. Sabe? Porque dois amigos meus perderam uma amizade de infância por causa de Lula e Bolsonaro. Então, quando chegar na minha casa, cada um é o que é, e a gente vai beber e comer. Chego lá com aquele panelão de comida, bastante cerveja, bastante cachaça e só conversa fiada [risos]", disse.
"É, ué. Eu não me meto em nada [de política]. Na hora eles falam: 'Pô, mas fulano foi lá na tua casa'. Meu portão fica aberto. Entra morador de rua, médico, polícia, otário, malandro... Entra todo mundo. Entra político, mas eu não vou na casa de nenhum deles", completou.
Zeca Pagodinho também ficou famoso por ser muito religioso, e por aparecer em muitas religiões. Para ele, isso é uma tradição de família e que ele tenta manter com seus filhos e netos.
"Olha, ontem eu fui no meu terreiro lá, na minha macumba lá, fazer minhas coisas. Mas todo dia, às seis da tarde, eu faço minha oração, rezo minha Ave Maria, com um copo d'água ao lado do rádio. Porque foi assim que minha avó me ensinou. Porque era assim na casa dos meus avós. E funcionava, né? Eles [filhos e netos] continuam, mantêm a tradição. Quando estão lá em casa, para tudo. Eu ligo o rádio, se tiver alguém falando, eu só olho assim e eles vêm comigo. Quando os amigos evangélicos vão lá em casa, a gente faz nossas orações. E todos respeitam. Têm que respeitar, porque eu respeito todo mundo. Penso sempre em Deus, né? Depois em tudo que é coisa boa. Eu só não vou em lugar que fala coisa ruim, eu não vou. Eu não curto.", disse.
Perguntado sobre o mundo de hoje, Zeca demonstrou estar desesperançoso, principalmente com a violência. "Eu vejo tanta maldade no jornal... Tem o 'Bom Dia Rio', aí o cara fala: 'Bom dia, pai estupra filha de três anos'. Bom dia? Que bom dia é esse?! Pai mata filho... Aí você vê ontem, a garota mandou o namorado dela matar o pai. Isso não existe, cara. Essa violência aí. Agora a moda é matar mulher, daqui a pouco não vai ter mais mulher no mundo, todo dia mata mulher. Não é possível. Olha o feminicídio, criaram até um nome para isso", disse, indignado.
"Tem muita violência e muita pobreza. Quando eu vejo pessoas morando na rua, isso aí me machuca muito. Criança, então... Outro dia na cidade, passei ali para aqueles lados da Santa Casa. Quanta gente morando na rua! E com criança. Como é que faz? Como é que toma banho? Como é que alimenta? O país não precisa disso, né? Se eu pudesse, acabava com isso tudo, porque é muito triste você ver as pessoas assim. Outro dia eu tava falando isso até para uma psicóloga. Eu deixo de comer carne, sabe? Eu como feijão, arroz e ovo, para ser solidário às pessoas que não conseguem. É uma covardia minha comer um filé mignon enquanto tem gente que não sabe nem se vai ter o que comer", contou.
Perguntado sobre o Brasil que queria deixar para os netos, Zeca deu um conselho para a futura geração: fazer tudo muito bem. "Ah, aquele que eu vivi. Eu tenho saudade de ser como era, queria que eles pudessem andar na rua, pudessem ir passear, cantar um samba num boteco... Era muito bom, né? Não quero que eles tenham a minha vida, porque é muito difícil. Mas pensar em coisas boas, fazer coisas boas, músicas boas. E tudo que fizer, tem que fazer bem. Não é mais ou menos. Ou é bom para caramba ou procura outra coisa", concluiu.
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