Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Empenhado na criação de seu 21. livro, em meio a seus compromissos como imortal na Academia Brasileira de Letras (ABL), o catarinense Godofredo de Oliveira Neto embarca numa máquina do tempo digna daquelas de H. G. Wells sempre que folheia as páginas de "O Bruxo do Contestado". Trinta anos atrás, o romance que relê sob olhos críticos - e decolonais - uma das batalhas mais violentas do Brasil, na primeira metade do século XX, fez dele um estandarte de uma nova épica na prosa nacional da dêcada de 1990. Ali se pavimentou o trajeto que levou o professor da Faculdade de Letras da UFRJ a ocupar a cadeira de n. 35 da mais ilustre instituição ligada à prosa e à poesia, na América do Sul. Finalizando um curso sobre cinema e expressão literária no campus do Fundão, o educador, autor de pérolas como "Pedaço de Santo" (de 1997) e "O Desenho Extraviado de Hieronymus Bosch" (de 2023) tem planos para celebrar um de seus mais importantes estudos sobre a barbárie deste país.
Uma nova leva de leituras se desenha sobre sua escrita, ao passo que na ABL, ele dirige o arquivo com o acervo dos acadêmicos (desde Machado de Assis) e contribui na confecção da programação das conferências da casa.
Revisar seu "Bruxo" é abrir feridas acerca da disputa territorial entre SC e o Paraná, de 1912 a 1916, que gerou um vácuo de poder. A situação social piorou com a construção da estrada de ferro Brazil Railway e a exploração de madeira por empresas estrangeiras, o que expulsou milhares de posseiros de suas terras.
A conversa a seguir é uma forma de Godofredo, que vem de Blumenau, pintar os signos da História com novas cores.
Que literatura o senhor buscou fazer em "O Bruxo do Contestado" e o quanto dessa busca libertou a sua prosa para o regionalismo (e do regionalismo)?
Godofredo de Oliveira Neto - Escrevo sobre tempos e espaços que conheci bem. O livro tem três tempos: o Contestado, narrado por personagem que viveu aquela guerra; a vida no Sul do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial na Europa, relatada pela protagonista Tecla, que viveu essa época na região; e os tempos sombrios do pós-64, quando o livro é escrito, quer dizer, o tempo da enunciação da narrativa. Três momentos muito importantes para o país. É um livro de extração histórica, mais do que um livro histórico. Escrevi "O Bruxo" visando contribuir para a interpretação do Brasil, inclusive o de hoje! Que a literatura sirva para tornar um país menos cego. Mas não descuido, jamais, da autonomia da literatura. "O Bruxo" é narrativa literária.
O que o Contestado, o evento, simboliza para o seu estado (Santa Catarina) e para um país que pratica como lazer o esquecimento?
Vejo a Guerra do Contestado (1912-1916) como um dos acontecimentos marcantes não só no Brasil, mas na geopolítica mundial. O movimento se deu em plena Primeira Guerra Mundial, poucos anos após a traumática Guerra de Canudos (aliás, são semelhantes as duas). Foram empregados pela primeira vez no continente americano aviões militares (competindo com a Revolução Mexicana); fuzis Comblain e munições foram testados pelo Exército brasileiro na região para uso na Europa em conflito; metade do Exército brasileiro foi destacada para a região; representantes do Partido dos Trabalhadores Russos, exilados na Suíça, do governo dos Estados Unidos e do Partido Trabalhista Inglês foram observar o conflito. Dá para sentir a importância do acontecimento, né? No meu livro, destaco sempre, fato pouco visto pelos exegetas do texto, a personagem Antônia Casamança, a trabalhadora negra que consegue entender a filha muda do violento personagem Gerd, nos anos 1940, no Sul do Brasil. Antônia Casamança desenlaça o enredo e explica o livro.
Qual foi a maior resposta, de público e crítica, que o livro teve à época de seu lançamento?
A repercussão foi imensa. Fui convidado, imagine, a ler e analisar o livro na Academia Militar das Agulhas Negras. A revista "Veja" publicou imediatamente um artigo particularmente elogioso, que até me deixou constrangido pela primeira frase da matéria. O livro foi de leitura obrigatória em vestibulares no Brasil. A imprensa de todo o país deu matéria. Em 1996 e 1997, estive presente em 18 eventos em todo o país para falar de "O Bruxo do Contestado". Lembro-me de que fiquei exausto, doente até. O que sinto, em contrapartida, é que a editora, na época, não inscreveu o livro em premiações nacionais, apesar de dar cobertura e divulgação. Uma pena.
Que planos o senhor tem para novas edições, relançamentos ou eventos do livro?
Tenho planos em vista, mas não posso falar ainda.
O senhor se firmou como professor em paralelo à carreira desse e de outros livros. Quais são os desafios e os prazeres de lecionar literatura hoje?
A literatura tira o embaçamento dos olhos do ser humano sobre o real, ela conserta os defeitos de fabricação da condição humana. A autocentralidade leva um tranco. Esse é o desafio de escrever e os prazeres de lecionar literatura.
Qual foi o primeiro livro que leu na vida e lhe marcou?
Os versos de Cruz e Sousa, lidos pelo meu pai em voz empostada, e os contos de Machado de Assis, induzidos pela professora de Português do Colégio Santo Antônio.
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