Gastronomia

O que esperar da próxima safra brasileira?

A edição 2026 da Avaliação Nacional de Vinhos confirma duas tendências em curso: o vinho brasileiro saiu da Serra Gaúcha e ampliou o repertório de uvas

O que esperar da próxima safra brasileira?

Affonso Nunes

Duas garrafas de Tannat dividiram as notas máximas da 34ª Avaliação Nacional de Vinhos, apresentada em 17 de outubro em Bento Gonçalves (RS): uma da Batalha Comercial de Vinhos, em Candiota, no coração da Campanha; outra da Larentis, na Serra Gaúcha. Ambas receberam 97 pontos num evento que não distribui medalhas, não elege campeões, mas serve de termômetro para o que esperar da próxima safra dos vinhos brasileiros.

Os produtores não inscrevem rótulos prontos, mas amostras de varietais — vinhos de uma única casta, que poderão ser comercializados assim ou compor cortes, com a decisão final a cabendo ao enólogo.

Chegar às 16 taças que subiram ao palco leva três filtros. Entre 3 e 24 de agosto, um representante da Associação Brasileira de Enologia (ABE) foi a cada vinícola retirar quatro garrafas direto do tanque, da barrica ou do lote engarrafado, identificadas apenas por um número, sem rótulo. De 1º a 4 de setembro, 109 enólogos passam quatro dias e oito turnos diante de 5.121 taças, em degustação às cegas sob protocolo da Organização Internacional da Vinha e do Vinho, registrando notas em computadores individuais.

Cada vinho recebe uma nota por degustador; a classificação usa a mediana, com a média simples como desempate. Ficam os 30% de maior nota de cada categoria — não dos 558 no conjunto. Foi assim que 191 amostras de 50 vinícolas chegaram ao grupo dos mais representativos, com larga maioria gaúcha: 167, proporcional aos cerca de 90% da produção nacional que o estado responde. São Paulo somou sete; Santa Catarina e Distrito Federal, quatro cada; Bahia, três; Goiás e Minas Gerais, duas cada; Paraná e Rio de Janeiro, uma.

Mas as 16 amostras apresentadas no evento final n]ao são as 16 maiores notas gerais. São cotas fixas por categoria — duas bases para espumante, duas de brancos não aromáticos, duas de brancos aromáticos, uma de rosé, duas de tintos jovens e sete de tintos — preenchidas em ordem decrescente de mediana, com no máximo uma amostra por empresa e limite por variedade. Em nenhum ponto o regulamento fixa cota por estado ou região. Ao fim, um painel redegusta os escolhidos; se mais de um terço dos votos pedir a desclassificação, o vinho cai e é substituído.

As 16 garrafas reúnem doze variedades. Chardonnay e Pinot Noir aparecem como base de espumante na Casa Valduga e na Geisse e voltam em branco e tinto jovem. A Chenin Blanc da Cooperativa São João, de Farroupilha, chegou a 95 pontos; o Rebo da Campestre, de Campestre da Serra, e o Teroldego da Don Guerino, de Alto Feliz, a 96. O Marselan da Mioranza e o corte de Syrah, Marselan e Cabernet Franc da Villa Triacca completam o time das castas menos óbvias.

"Ver essa qualidade se expressar em tantos estados, com diferentes condições de clima, solo e formas de produzir demonstra a capacidade técnica dos nossos profissionais", afirma Mário Lucas Ieggli, presidente da ABE, que completa 50 anos em 2026.

Os resultados completos, com as 16 amostras e suas notas, estão em www.enologia.org.br.