Correio da Manhã
Fotocrônica

A delícia do sotaque mineiro

A delícia do sotaque mineiro
Fotocrônica 20-0726 Crédito: Carlos Monteiro

Vem devagar, sem fazer barulho. Como café coado na hora. Como pão de queijo saindo do forno. Não invade a conversa. Pede licença, senta na varanda e, quando a gente percebe, já virou companhia.

Em Minas, as palavras parecem caminhar mais devagar. Não por preguiça. Por sabedoria. Há quem diga que o mineiro engole sílabas. Eu prefiro acreditar que ele guarda um pedaço delas para o próximo encontro.

Basta ouvir um "uai" para saber que existe afeto na frase. O "trem", então, resolve qualquer assunto. Trem é objeto, lembrança, problema, solução, alegria. Cabe o mundo inteiro dentro dessa palavra. E quando alguém pergunta "ocê tá bão?", não está apenas querendo uma resposta. Está oferecendo um pouco de atenção.

Tem ainda o "sô", que aproxima as pessoas, o "arreda", o "cadim", o "loguim", o "mexe com isso não", o "cê acredita?". Expressões que parecem nascer do fogão a lenha e ganhar a estrada antes de chegar aos dicionários.

O mineiro conversa como quem borda; sem pressa, ponto por ponto.

Talvez por isso Minas tenha produzido tantos artistas capazes de transformar delicadeza em obra.

Nas montanhas nasceram versos de Carlos Drummond de Andrade, que fez de Itabira um lugar eterno. Adélia Pradodescobriu poesia nas panelas, nas janelas e na fé cotidiana. João Guimarães Rosa reinventou a língua portuguesa para contar a grandeza do sertão, provando que as palavras também podem galopar.

Na música, Minas aprendeu cedo que silêncio também é melodia. Milton Nascimento deu voz às montanhas. Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Tavinho Moura, Fernando Brant e tantos outros transformaram amizade em canção e fizeram do Clube da Esquina um lugar onde o Brasil inteiro ainda gosta de se encontrar.

Entre eles estava Tavito, um compositor que parecia escrever com a serenidade das tardes mineiras. Em "Rua Ramalhete", fez de uma simples rua um endereço da memória afetiva. Em "Casa no Campo", ajudou a compor um sonho que continua atual: viver onde a vida tenha tempo para acontecer. Suas canções nunca precisaram levantar a voz. Bastava um violão, uma boa melodia e uma verdade bem colocada.

Talvez seja esse o segredo de Minas. Nada precisa ser exagerado. A paisagem não grita. Encanta. O povo não faz alarde. Recebe. O sotaque não impressiona. Abraça.

Percorrendo as estradas das Gerais, entre cidades históricas, montanhas cobertas de neblina e pequenas praças onde ainda se conversa no fim da tarde, percebe-se que o charme mineiro não mora apenas na arquitetura colonial nem na comida servida em fogão de lenha. Mora na maneira de falar.

Cada palavra parece carregar um pouco da terra vermelha, do cheiro de café recém-passado, do sino da igreja marcando as horas e da hospitalidade de quem sempre encontra mais uma cadeira para o visitante.

Quando chega a hora da despedida, o mineiro raramente diz apenas "até logo". Quase sempre emenda um "aparece lá em casa", mesmo que a casa fique do outro lado da serra. E a gente acredita que o convite é verdadeiro. Porque é. Talvez seja por isso que quem conhece Minas leva embora muito mais do que fotografias.

Leva um punhado de expressões que acabam escapando na primeira conversa. Leva o gosto de um queijo curado, o cheiro do café, a lembrança de uma boa prosa e a certeza de que existe um lugar onde as palavras ainda têm tempo para amadurecer.

E, no fundo, é esse o maior encanto do sotaque mineiro. Ele não fala apenas aos ouvidos. Fala diretamente ao coração.