Dança

Corpo presente

Companhia mineira apresenta as coreografias 'Piracema' e 'Lecuona' em curta temporada no Theatro Municipal

Corpo presente
'Piracema', estreou nacionalmente no ano passado na celebração dos 50 anos de atividade do Grupo Corpo Crédito: José Luiz Pederneiras/Divulgação

O Grupo Corpo retorna esta semana ao Theatro Municipal com um programa que aproxima tempos e atmosferas muito distintos de sua trajetória. A companhia mineira apresenta "Piracema", criação de 2025 que marcou seus 50 anos de atividades, e recoloca em cena "Lecuona", balé de 2004 que não era mostrado no Brasil havia uma década.

A temporada curta reúne duas peças coreografadas por Rodrigo Pederneiras e expõe, por caminhos diferentes, uma característica decisiva do grupo: a capacidade de fazer da música não apenas acompanhamento, mas arquitetura do movimento.

"Piracema" nasce de uma imagem natural e de uma metáfora de resistência. O título remete ao deslocamento dos cardumes rio acima para a desova, uma travessia contra a correnteza que a obra associa à persistência da criação. A coreografia é assinada por Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches, que passou a ser coreógrafa residente da companhia em 2025. A parceria inaugurada nessa montagem introduz uma nova composição de olhares sem abandonar a linguagem física que tornou o Corpo reconhecível desde sua fundação.

A trilha de "Piracema" foi criada especialmente por Clarice Assad. A peça se organiza em três momentos: uma viagem pela natureza, a passagem para um mundo urbanizado e a imagem de uma distopia que pode — ou não — ser revertida. "Usei bastante minha voz em harmonias vocais e até lancei mão, na terceira parte, de ruídos e sons criados por inteligência artificial", conta ela.

Essa progressão oferece ao espetáculo um horizonte contemporâneo. A correnteza deixa de ser somente cenário e passa a sugerir o esforço de continuar, de criar e de encontrar saídas em meio a transformações ambientais e sociais.

Macaque in the trees
'Lecuona', mergulha na atmosfera romântica das canções do pianista e compositor cubano Ernesto Lecuona | Foto: José Luiz Pederneiras/Divulgação

No mesmo programa, "Lecuona" estabelece outra temperatura. Criado em 2004, o balé parte de 11 canções românticas e uma valsa do compositor cubano Ernesto Lecuona, escritas nas décadas de 1940 e 1950. A música, marcada por paixão, melancolia e uma sofisticação que atravessa a formação clássica e a cultura popular, conduz uma cena de recortes oníricos. Há desejo e sofrimento amoroso, mas também a investigação de uma musicalidade que não se resume à nostalgia: Pederneiras encontra nas inflexões das canções uma matéria para desenhar relações, impulsos e suspensões.

A última apresentação da obra no Rio ocorreu em 2016. Revisitá-la agora permite observar como um trabalho criado há mais de duas décadas continua dialogando com a ideia de repertório vivo.

Fundado em Belo Horizonte, o Grupo Corpo construiu ao longo de cinco décadas uma assinatura em que a dança contemporânea conversa com referências populares, com a arquitetura visual e com encomendas musicais de artistas brasileiros. A companhia não trata a tradição como repertório fixo. Cada criação acrescenta uma resposta particular à música e ao corpo de seus bailarinos, e é essa continuidade em transformação que o programa do Municipal torna visível.

Serviço

Grupo Corpo: "Piracema" e "Lecuona"

De 2 a 6 de setembro

Theatro Municipal do Rio de Janeiro — Praça Floriano, s/nº, Centro | Sessões: quarta a sábado, às 20h; domingo, às 17h