Correio da Manhã
Dança

Na crina da micropolítica

Aline Bernardi leva ao palco do Angel Vianna 'Equina', espetáculo que funde filosofias sobre fabulações das memórias que formam corpo - com direito a debate aberto neste sábado

Na crina da micropolítica

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Coreografias que desafiam a linguagem - e não só a da dança - podem nascer da convivência do que se convencionou chamar "humano" e do que se ensaia existir como "não-humano", em uma aliança entre as espécies. Essa é a premissa de "Equina", que estreia no dia 17 de junho, no Teatro Angel Vianna, na Tijuca, com base nos questionamentos das artistas-pesquisadoras Aline Bernardi e Dani Lima.

O espetáculo é um desdobramento da pesquisa de doutorado de Aline (que está em cena) no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ. Nele, ecologias relacionais, num intercâmbio de formas de viver, podem propor modos de reparação micropolítica em um mundo danificado.

Neste sábado (13), quatro dias antes da estreia do espetáculo, cenas de "Equina" farão parte do encontro "Conversa Dançada Manada", das 15h às 17h, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, na Praça Tiradentes. Esse evento promove ainda uma conversa entre Aline e Dani, mediada pela professora Gabriela Lírio, do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ.

"Queremos evocar memórias, queremos fabular memórias e nos colocar diante das memórias que fazem corpo em nós, e, com isso, ficar diante dos imaginários que cultivamos e nos darmos conta do que cria corpo em nós... e perceber os gestos que nos compõem", explica Aline, que é doutoranda em Artes da Cena, pela UFRJ, e autora do livro-caderno "Umbigo: Poemas lunares", além de ter publicado "Embarcações". "Queremos convidar nós, humanos, a ficarmos diante de nossos problemas, tal qual (a bióloga, filósofa e autora do "Manifesto do Ciborgue" Donna J.) Haraway nos propõe e a nos responsabilizarmos por nossos gestos, nossos imaginários. Assim, o espetáculo busca convidar aos gestos de reparação micropolítica que podemos acionar: reparar - primeiro como gesto de observar, depois reparar como gesto de parar diante do que observamos; para então reparar como modo de refazer mundos".

As raízes desta pesquisa remontam à infância de Aline, quando a artista morou na zona rural do oeste paulista, e teve uma convivência íntima com cavalos de uma fazenda onde seu pai trabalhava. A partir dessa história pessoal e dos diálogos travados com as pesquisadoras Vinciane Despret e Anna Tsing (além da já citada Haraway), "Equina" busca articular as três dimensões da ecologia, segundo o filósofo e psicanalista Félix Guattari. A dimensão das subjetividades, a dimensão social e a dimensão ambiental. A partir delas, especula-se sobre regeneração da vida.

"Nesse sentido, o trabalho não dialoga com a via do antropomorfismo (que é atribuir características humanas aos animais). Talvez, o devir bicho em nosso trotar cênico seja um convite a nos despirmos de nossos especismos, a nos percebermos tão bicho quanto animais de outras espécies. É um convite a nós, humanos, de reconhecer nossas atitudes e nos responsabilizarmos por elas, de ficarmos com o problema da danificação do mundo como gesto humano que precisa de reparação", explica Aline. "Se há alguma tentativa de metamorfose, este convite é para nós humanos - a partir do movimento de nossa percepção e da experiência radical de estar vivo perante nossos atos, nossos gestos, nossos modos de cultivar relações. 'O Manifesto das Espécies Companheiras', da Haraway, dialoga mais diretamente com a dramaturgia de 'Equina', pois cavalos e éguas são alteridades significativas no meu modo de pensar-sentir-mover enquanto ato corporal. O que desejamos é que 'Equina' coloque a percepção humana em movimento, ative conversas e desdobre imaginários acerca das ecologias relacionais e alianças interespécies para que possamos abrir possibilidades de mundificação conjunta".

SERVIÇO

EQUINA

Teatro Angel Vianna (Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro - Rua José Higino, 115 - Tijuca)

De 17 a 28/6* | 1ª semana: quarta, quinta e sábado (19h) e domingo (18h) | 2ª semana: quinta a sábado (19h) e domingo (18h)

*No dia 26, haverá três ações de acessibilidade (audiodescrição para pessoas cegas, intérprete de libras para pessoas surdas e monitora de regulação sensorial para neurodivergentes ou pessoas com alta sensibilidade)

Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)

Conversa Dançada Manada, com Aline Bernardi e Dani Lima, mediação de Gabriela Lírio

Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (Rua Luís de Camões, Praça Tiradentes, 68)

13/6, das 15h às 17h | Grátis