Dirigido pelo paulista Fernando Meirelles, "Here Comes The Flood", thriller que junta Denzel Washington a Robert Pattinson, ficou para 2027, e traz, na fotografia, um uruguaio que correu mundos: César Charlone. Ao mesmo tempo que essa trama de assalto estrear, Charlone estará celebrando os 20 anos de um longa-metragem que levou seu país ao Festival de Cannes e nos apresentou ao ator Cesar Troncoso: "O Banheiro do Papa". Essa dramédia sobre fé na (em Deus e na superação da pobreza) foi uma das raras coqueluches cinéfilas de uma nação da América do Sul que, vizinha da Argentina e do Brasil, costuma mais coproduzir com seus vizinhos de continente do que se arriscar solo nas telas. Seu representante na disputa pelo Oscar, "Um Cabo Solto", rodado pelo ator Daniel Hendler, é um dos raros títulos de lá que tem viajado por mostras de prestígio, como o Festival de Veneza e o de San Sebastián.
Em sua trama, Santiago (interpretado por Sergio Prina) é um policial de baixo escalão da Argentina que foge para o Uruguai após testemunhar um incidente comprometedor envolvendo seus colegas de farda. Sem dinheiro ou abrigo, ele tenta se misturar à cultura local no litoral uruguaio enquanto é perseguido por ex-colegas, encontrando ajuda de moradores e a possibilidade de um novo amor com Rocío (Pilar Gamboa).
Enquanto Hendler ainda busca espectadores, sua terra natal, Montevidéu, mantém-se como um polo importante dentro da cena latina, acolhendo sets de diferentes nações ("Veneza", de Miguel Falabella, foi rodado lá), emprestando-lhes locações e equipes qualificadas. Ao mesmo tempo, a partir daquela capital, uma série de produções feitas em regime de cooperação com hermanos sul-americanos são idealizadas. Há uma série delas na 50ª Mostra de São Paulo.
A mais expressiva é uma dobradinha com o Brasil que ganhou o troféu de Melhor montagem no Festival do Rio: "Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira". Com sessão em 23/10, às 18h45, no Reserva Cultural 2 e em 28/10, às 20h, no Espaço Petrobras de Cinema 2, o longa marca a volta da equipe criativa de "Mulher do Pai", sensação de 2016.
Agora, o casal Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão dividem a direção, a quatro mãos, numa simbiose plena, para investigar cicatrizes ainda abertas pelos Anos de Chumbo, estabelecendo uma conexão geográfica, pelas vias do trauma, entre Brasil e Uruguai. A trama parte de Luiza (Maria Galant), uma jovem de 27 anos que, em Porto Alegre, em 2019, começa a receber pela internet vídeos enviados por uma desconhecida, gravados no país vizinho, nos quais uma mulher chamada Verónica conta histórias de sua juventude — até que o aparente engano desemboca numa perturbadora revelação familiar.
É uma narrativa em que a palavra se impõe como soberana absoluta, costurando não ações — sem jamais resvalar numa veia meramente descritiva —, mas inquietações, silêncios e resfolego, num inventário dos desmontes familiares produzidos sob os golpes do martelo das ditaduras sul-americanas. Carrega ecos do "Vertigo" ("Um Corpo Que Cai", de Hitchcock) na sua fixação por um ente já finado que parece insistir em fica... ainda que na forma de outra pessoa.
Enquanto os diálogos pavimentam uma medida de mundo, amparados por uma montagem enxuta de Oliveira e Tula Anagnostopoulos, a fotografia de Bruno Polidoro espatifa os signos produzidos pelos verbos e substantivos que ganham corpo sobretudo na boca de uma impressionante Verónica Perrotta, encontrando um repertório próprio de representações do real e recusando-se a simplesmente ilustrar aquilo que se diz. Dessa fricção entre palavra e imagem nasce uma dinâmica formal de risco, mas de enorme potência poética, reforçada pelo desenho de som de Miriam Biderman e Ricardo Reis e pela música de Lee Ranaldo.
Em terras cariocas, pérolas uruguaias desembarcam na Cinelândia a partir da próxima terça-feira, dia 20, com cinema, música e uma homenagem a José "Pepe" Mujica (1935-2025). Até 1º de novembro, a Caixa Cultural Rio de Janeiro recebe a mostra "Cine Uruguai - Novos Horizontes", com 16 longas e cinco curtas, sempre com entrada gratuita. Com curadoria da cantora TAMY e de Leonardo Luiz Ferreira, a programação faz um passeio pela produção uruguaia dos últimos dez anos. Uma das atrações imperdíveis é "Uma Noite de 12 Anos" (2018), de Álvaro Brechner, vencedor de 47 prêmios internacionais, que revisita os anos de prisão e tortura de Mujica e seus companheiros durante a ditadura.
O filme passa no dia 23, às 14h30, numa tarde dedicada ao ex-presidente, que inclui ainda "Os Sonhos de Pepe", de Pablo Trobo, às 17h, e um bate-papo. A festa começa no dia 20 com "Agarra-me Forte", de Ana Guevara Pose e Leticia Jorge, indicado ao Goya. Entram ainda nesse mapa afetivo do país vizinho "Cachorros", de Gerardo Minutti, "Morto com Glória", de Marcela Matta e Mauro Sarser, e o musical "Rada", de Luis Ara, sobre o lendário Rubén Rada. Debates, sessões de curtas e uma masterclass completam a programação na Caixa Cultural, na Rua do Passeio, 38.
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