Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Uma trinca de vozes autorais de gerações distintas - duas delas consagradas por experiências anfíbias entre documentário e ficção e uma linkada ao jornalismo - vão inaugurar a competição oficial de longas da Première Brasil 2026. De um lado tem Emília Silveira e seu "Uma Missa para Dom Angélico"; do outro, Lucia Murat, com "O Sertão das Nossas Memórias", e, por fim, Guilherme Coelho, com "Oceânico". As sessões deles serão no Estação Claro Gávea 4 e 5, a partir das 17h. Ali será dada a largada para um certame que terá a produtora espanhola Esther García no comando do júri.
A saga de Dom Angélico, feito pela realizadora de "Setenta" (2013) e "Callado" (2017), parte já do nascimento dele numa família pobre e se destaca no seu apoio aos movimentos sociais que eclodem no final dos anos 1950. É a saga de como ele vira o bispo dos oprimidos e das passeatas, da luta por mais moradia e melhores condições de vida para os trabalhadores. Ele comandou multidões nas missas por direitos humanos. No jornalismo, informou comunidades com o Grita Povo. Perseguido pela ditadura militar, enfrentou a polícia, foi detido e ameaçado várias vezes, mas nunca se calou. Viveu 92 anos acreditando em Deus e na democracia.
Com Dudu Miranda na fotografia, a aclamada diretora de "Quase Dois Irmãos" (2004) se lança num road movie que viaja do Rio de Janeiro ao sertão da Bahia. Com a ajuda de três sobreviventes, a produção revisita um massacre de 1971, ocorrido sob a ditadura militar. O ataque tirou a vida do capitão Carlos Lamarca — inimigo público número um do regime — e de José Campos Barreto (Zequinha), líder comunitário e ex-dirigente de uma greve operária.
Contando com a luz da fotógrafa Flora Dias, o realizador de "Fala Tu" (2003) se afina com o talento de Ana Carbatti em sua investida pelas veredas ficcionais de "Oceânico". Em seu enredo, Adyr (Carbatti) é uma brilhante cientista que, após perder o marido para o alcoolismo, descobre na medicina psicodélica a chave para a cura dessa doença. Quando se torna alvo de um grupo interessado em se apropriar de seu trabalho, ela se vê ameaçada e sem saber em quem confiar. Agora, precisará lutar para proteger sua pesquisa, sua vida e a de seu filho, Tom.
Na competição de ficção, "Oceânico" terá pela frente outros nove candidatos. Além do longa de Guilherme Coelho, concorrem "Diário do Fogo", de Maju de Paiva e Bernardo Florim; "Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira", de Cristiane Oliveira e Gustavo Galvão; "O Filho da Puta", de Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite; "Funk", de Aly Muritiba; "London", de Victor Di Marco e Márcio Picoli; "A Margem do Rio", de Enock Carvalho e Matheus Farias; "Maria de Maria", de Luiza Shelling Tubaldini; "A Professora de Francês", de Ricardo Alves Jr.; e "Vicentina Pede Desculpas", do mineiro Gabriel Martins, que chega ao Rio após sua passagem pela disputa da Concha de Ouro do Festival de San Sebastián.
Já Emília Silveira e Lucia Murat enfrentam seis títulos na competição de documentários. Estão na corrida "Alucinação", de Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano; "Cão Sem Plumas", de Camila Valença; "Dragões", de Miguel Antunes Ramos; "Elza", de Eryk Rocha; "A Extraordinária Vida de Vera Valdez", de Fabio Meira; e "Fui Olhar Você Dormir", de Anna Azevedo. É uma disputa de grifes autorais aclamadas.
Na competição de curtas-metragens, o Redentor será disputado por onze exercícios de poesia em pílula: "3x4", de Juliana Tizatto; "Better Future", de Jungle; "Boulevard Arrudas", de Matheus Moura; "A Casa de Dona Carlota", de Lili Fialho e Bruna Linzmeyer; "Fissuras", de Diana Coelho; "Fortaleza", de Michel Stolnicki; "Joqueta", de Luciana Vieira; "Lagoa do Abandono", de Diego Maia; "Pedra-Mar", de Janaína Lacerda; "Reteté", de Donna Oliveira; e "Santo", de Maria Luísa Alves.
A Novos Rumos, braço competitivo dedicado à descoberta e à experimentação, põe oito longas na corrida: "144 - Apocalipse Não", de João Paulo Cuenca; "O Deserto de Luiza", de Alan Minas; "Isabel", de Gabe Klinger; "Jardim dos Silêncios", de Henrique Dantas; "Malick", de Cassio Tolpolar e Modou Awa Dieye; "Não Estamos Sonhando", de Ulisses Arthur; "Talismã", de Thais Fujinaga; e "Turma 101", de Wagner Novais. Essa turma será julgada por um time à parte, liderado pela montadora Karen Harley, incluindo a produtora Dora Amorim, o cineasta Guto Parente e a roteirista e educadora Maíra Oliveira.
O júri da disputa principal, chefiada pela já citada Esther García (que produz na El Deseo, da Espanha, os filmes de Almodóvar) conta ainda com a compositora Flavia Tygel, a programadora da Berlinale Jacqueline Lyanga; a diretora de elenco Marcela Altberg; a produtora Sophie Erbs; e o ator Gabriel Leone.
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