Como transdisciplinaridade é palavra de ordem no Festival de San Sebastián, o Museu San Telmo, uma das instituições em prol da memória mais concorridas da Espanha, situado na orla da cidade basca, empresta suas paredes a uma cineasta que, há cerca de três décadas, exporta para o mundo inquietações éticas, afetivas e morais nascidas deste canto da Península Ibérica: a catalã Isabel Coixet.
Em colaboração com a maratona cinéfila de Donostia (nome da região no idioma Euskara, língua local), a galeria apresenta, até 1º de novembro, com entrada gratuita, a exposição "La Disciplina Del Caos". Trata-se de uma reunião de mais de 60 colagens feitas pela diretora de "Fatal" (2008), "A Livraria" (2017) e "Elisa y Marcela" (2019) em Nova York, Roma e Montolieu. São trabalhos manuais e digitais nos quais fotografias, recortes, textos, objetos encontrados, lembranças pessoais e fragmentos de vidas alheias formam uma espécie de montagem cinematográfica imóvel.
A mostra passou em 2025 pelo Museu Thyssen-Bornemisza, dentro da programação do PhotoEspaña, e chega a San Telmo acrescida de novos trabalhos, revelando uma faceta menos conhecida da autora de "Minha Vida Sem Mim" (2003) e "A Vida Secreta das Palavras" (2005). O museu preparou ainda uma publicação com textos da própria Coixet, feito sob o crivo da jornalista, escritora e roteirista Laura Ferras e da historiadora da arte Estrella de Diego.
A ponte entre as paredes da galeria e as telas de Donostia se completa com a presença da cineasta na programação do festival com "Três Vezes Adeus" ("Tre Ciotole"). Artesã autoral consagrada por retratar o quanto o amor sabe ser implacável, Coixet volta à ribalta com uma trama falada em italiano, protagonizada por Alba Rohrwacher e Elio Germano. Tudo começa com o que parece ser uma briga trivial entre Marta (Alba) e Antonio (Germano), até que o casal rompe a relação sob a fricção do ressentimento. Ela reage fechando-se em si mesma e afastando-se do mundo, mas há algo que não consegue ignorar: uma brusca perda de apetite. Entre as colagens de "A Disciplina do Caos" e as feridas sentimentais de "Três Vezes Adeus", Coixet reafirma em San Sebastián uma ideia que atravessa seu cinema: às vezes é preciso desordenar imagens, lembranças e afetos para descobrir o que ainda resta deles.
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