Cinema

Ascensor para o cadafalso (da invenção)

Um dos animadores de maior prestígio no país, Marão desenvolve novo longa, 'O Elevador', numa mistura de Robert Altman com Dias Gomes, filtrados por sua ironia abissal

Ascensor para o cadafalso (da invenção)
Marão, animador Crédito: Divulgação

Chamado de "o Walt Disney de Nilópolis" e consagrado mundialmente como animador por ter participado de 694 festivais com seus 15 filmes, ganhando 131 prêmios com eles, Marão tem um longa-metragem novo no forno, em seu estúdio, de onde saíram joias como "Até A China" (2015) e "Bizarros Peixes Das Fossas Abissais" (2023). O título: "O Elevador". Tem um cenário que sobe... e desce. A questão dramatúrgica é o que cai e o que transcende em seus usuários.

Marão explica: "Um elevador é o meio de transporte para todos irem a todos os lugares. Basta apertar a combinação de números do mostrador e o ascensor levará seu passageiro para o quinto andar ou para o trigésimo sexto andar. Basta apertar outra combinação de números e o elevador seguirá para outro prédio de outra rua de outra cidade. Ou para a praia de Copacabana, para o supermercado, para o Maracanã, ou para uma rua de Bonsucesso. Múltiplos personagens passarão pelo elevador e a narrativa acompanhará cada um deles em seus cotidianos, dramas e relacionamentos até o momento em que eles entram no elevador, quando a narrativa passa a seguir outro personagem desde o momento que ele sai do elevador até retornar para seu próximo trajeto. Todavia, um dia o elevador quebra".

Essa produção, já em andamento, com previsão de lançamento para 2027, será realizada em animação 2D tradicional, desenhada à mão e finalizada digitalmente. Utiliza a técnica de full animation, pra fluidez e espontaneidade ao movimento. Apesar de retratar personagens naturalistas e problemas reais, o estilo adotado dará à narrativa um caráter cômico e adulto, estilizado e distinto do infantil.

"A proposta mistura o naturalismo do teórico teatral Stanislavski com o exagero da animação 2D dos anos 70", antecipa Marão. "O projeto é autoral e quase autobiográfico, baseado não em relatos literais, mas na veracidade dos sentimentos e memórias, onde realidade e lembrança se mesclam. A abordagem narrativa é surrealista, combinando diálogos naturalistas com situações absurdas e exageradas, muitas vezes relacionadas ao personagem estrutural do filme: o elevador, a locação".

O cineasta insiste que ele não é o personagem principal, mas, sim, a estrutura em torno da qual circulam diferentes personagens cujas histórias se entrelaçam a partir de um defeito no equipamento. Cada um traz conflitos pessoais, compondo um mosaico coletivo.

"Tenho como referência o realismo fantástico de Dias Gomes misturado com algumas obras de Robert Altman, como 'Short Cuts', que entrelaçam núcleos independentes para criar um conjunto conceitual e emocional e construir o todo".

"O Elevador" teve apoio do PRODAV para o desenvolvimento do projeto e o edital da RioFilme para a produção. "Este ano a (empresa) Coala se tornou coprodutora do longa e recebeu o apoio do PROAC. É minha primeira coprodução em toda a carreira", comemora Marão. "A maior dificuldade de se fazer um longa-metragem animado no Brasil sempre é a combinação de orçamento com cronograma. Mais uma vez, estamos trabalhando com um orçamento que é proporcional ao valor de nove segundos de 'Toy Story 5'. O valor total do nosso orçamento daria pra produzir 9 segundos do último longa da Pixar. Não dez segundos; apenas nove. Mas vamos fazer. A experiência do meu longa anterior, o 'Bizarros Peixes das Fossas Abissais' (e a lacuna dessa experiência) é justamente o gargalo entre uma produção e a outra. Criamos dinâmicas e logísticas de trabalho, inventamos formas de proceder que, pela nossa técnica 2D tradicional específica, não podiam emular outros estúdios brasileiros ou estrangeiros no longa anterior. Porém, pelo espaço temporal entre a finalização do ouro filme e o início deste, perdemos grande parte da equipe (que precisou buscar outros trabalhos) e consequentemente perdemos muito do que foi desenvolvido previamente. Cada etapa, até a definição da nomenclatura dos arquivos, faz uma diferença imensa em um projeto deste tamanho".

Trabalho a pleno vapor para finalizar "O Elevador" para o ano que vem, Marão recorre à sua memória enciclopedista (no que diz respeito da produção animada nacional) a fim de faz um balanço do setor. É um balanço otimista.

"O Brasil produziu um pouco mais de 50 longas de animação em toda a sua história. E mais da metade desta lista nas últimas duas décadas. Outros cinquenta estão em produção atualmente. É o melhor momento desde 1917, data da primeira animação nacional. Estou ansioso para assistir 'O Filho da Puta', longa de animação adulta com a direção de Erica Maradona e Sávio Leite e Tania Anaya e Otto Guerra. Ao mesmo tempo, estou igualmente ansioso para ver esses tantos longas de nomes neófitos de regiões relativamente recentes na produção de animações nesta metragem. É um momento empolgante, que mescla nomes experientes com tanta gente estreante. Fico muito, muito feliz".