Chamado de "o Walt Disney de Nilópolis" e consagrado mundialmente como animador por ter participado de 694 festivais com seus 15 filmes, ganhando 131 prêmios com eles, Marão tem um longa-metragem novo no forno, em seu estúdio, de onde saíram joias como "Até A China" (2015) e "Bizarros Peixes Das Fossas Abissais" (2023). O título: "O Elevador". Tem um cenário que sobe... e desce. A questão dramatúrgica é o que cai e o que transcende em seus usuários.
Marão explica: "Um elevador é o meio de transporte para todos irem a todos os lugares. Basta apertar a combinação de números do mostrador e o ascensor levará seu passageiro para o quinto andar ou para o trigésimo sexto andar. Basta apertar outra combinação de números e o elevador seguirá para outro prédio de outra rua de outra cidade. Ou para a praia de Copacabana, para o supermercado, para o Maracanã, ou para uma rua de Bonsucesso. Múltiplos personagens passarão pelo elevador e a narrativa acompanhará cada um deles em seus cotidianos, dramas e relacionamentos até o momento em que eles entram no elevador, quando a narrativa passa a seguir outro personagem desde o momento que ele sai do elevador até retornar para seu próximo trajeto. Todavia, um dia o elevador quebra".
Essa produção, já em andamento, com previsão de lançamento para 2027, será realizada em animação 2D tradicional, desenhada à mão e finalizada digitalmente. Utiliza a técnica de full animation, pra fluidez e espontaneidade ao movimento. Apesar de retratar personagens naturalistas e problemas reais, o estilo adotado dará à narrativa um caráter cômico e adulto, estilizado e distinto do infantil.
"A proposta mistura o naturalismo do teórico teatral Stanislavski com o exagero da animação 2D dos anos 70", antecipa Marão. "O projeto é autoral e quase autobiográfico, baseado não em relatos literais, mas na veracidade dos sentimentos e memórias, onde realidade e lembrança se mesclam. A abordagem narrativa é surrealista, combinando diálogos naturalistas com situações absurdas e exageradas, muitas vezes relacionadas ao personagem estrutural do filme: o elevador, a locação".
O cineasta insiste que ele não é o personagem principal, mas, sim, a estrutura em torno da qual circulam diferentes personagens cujas histórias se entrelaçam a partir de um defeito no equipamento. Cada um traz conflitos pessoais, compondo um mosaico coletivo.
"Tenho como referência o realismo fantástico de Dias Gomes misturado com algumas obras de Robert Altman, como 'Short Cuts', que entrelaçam núcleos independentes para criar um conjunto conceitual e emocional e construir o todo".
"O Elevador" teve apoio do PRODAV para o desenvolvimento do projeto e o edital da RioFilme para a produção. "Este ano a (empresa) Coala se tornou coprodutora do longa e recebeu o apoio do PROAC. É minha primeira coprodução em toda a carreira", comemora Marão. "A maior dificuldade de se fazer um longa-metragem animado no Brasil sempre é a combinação de orçamento com cronograma. Mais uma vez, estamos trabalhando com um orçamento que é proporcional ao valor de nove segundos de 'Toy Story 5'. O valor total do nosso orçamento daria pra produzir 9 segundos do último longa da Pixar. Não dez segundos; apenas nove. Mas vamos fazer. A experiência do meu longa anterior, o 'Bizarros Peixes das Fossas Abissais' (e a lacuna dessa experiência) é justamente o gargalo entre uma produção e a outra. Criamos dinâmicas e logísticas de trabalho, inventamos formas de proceder que, pela nossa técnica 2D tradicional específica, não podiam emular outros estúdios brasileiros ou estrangeiros no longa anterior. Porém, pelo espaço temporal entre a finalização do ouro filme e o início deste, perdemos grande parte da equipe (que precisou buscar outros trabalhos) e consequentemente perdemos muito do que foi desenvolvido previamente. Cada etapa, até a definição da nomenclatura dos arquivos, faz uma diferença imensa em um projeto deste tamanho".
Trabalho a pleno vapor para finalizar "O Elevador" para o ano que vem, Marão recorre à sua memória enciclopedista (no que diz respeito da produção animada nacional) a fim de faz um balanço do setor. É um balanço otimista.
"O Brasil produziu um pouco mais de 50 longas de animação em toda a sua história. E mais da metade desta lista nas últimas duas décadas. Outros cinquenta estão em produção atualmente. É o melhor momento desde 1917, data da primeira animação nacional. Estou ansioso para assistir 'O Filho da Puta', longa de animação adulta com a direção de Erica Maradona e Sávio Leite e Tania Anaya e Otto Guerra. Ao mesmo tempo, estou igualmente ansioso para ver esses tantos longas de nomes neófitos de regiões relativamente recentes na produção de animações nesta metragem. É um momento empolgante, que mescla nomes experientes com tanta gente estreante. Fico muito, muito feliz".
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