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Antigos espíritos do carinho

Antigos espíritos do carinho

Flagra-se uma surdez institucional de toda esta nação... de toda a América Latina de passado colonial escravocrata, na dimensão fabular de "Nosso Segredo", longa-metragem vencedor do Kikito de Melhor Filme no recém-encerrado Festival de Gramado, que parece ser a resposta mais sábia do cinema nacional a uma provocação da filósofa Djamila Ribeiro. Em seus livros, ela escreve: "O não ouvir é a tendência a permanecer num lugar cômodo e confortável daquele que se intitula poder falar sobre os Outros, enquanto esses Outros permanecem silenciados."

Talvez por isso, o pequeno Tutu, personagem encantador, de apenas seis anos, vivido por Efraim Santos, custe tanto a ter a atenção dos adultos a seu redor, na produção dirigida pela atriz Grace Passô, ao mencionar a presença de "Pretinha", entidade espectral que concede dimensão espiritualista a um drama cuja argamassa são os afetos familiares. Uma casa de ethos decolonial, onde o amor entre os parentes é pleno, mesmo em dias de sofrimento, torna-se (a um só tempo) arena, microcosmos e coprotagonista deste estudo sobre alianças em tempos de ausência. Um estudo que se estrutura na tela com delicadeza contagiante.

Consagrado na Berlinale, em fevereiro, na mostra Perspectivas, "Nosso Segredo" parte do luto. A morte de um patriarca (branco) serve de ponto de partida para uma investigação delicada sobre as práticas racistas denunciadas por Djamila na cômoda surdez regente da alteridade alheia (em especial a do povo eurocêntrico), que se manifesta entre memórias e angústias.

Produzido por Ricardo Alves Jr., "Nosso Segredo" acompanha uma fase de "volta por cima" na rotina de uma família assombrada secularmente pelas violências do preconceito, que tenta reorganizar a rotina após a perda do pai. Enquanto os adultos enfrentam a dor de maneiras distintas, Tutu se atém à manifestação misteriosa em seu lar, que parece simbolizar proteção para aquele núcleo familiar contra as bestialidades de populações brancas intolerantes. A dimensão fantástica se mistura ao cotidiano sem romper a verve "pé no chão" com que o dia a dia é narrado, como se via nos filmes iranianos dos anos 1990 (tipo "O Gosto da Cereja").

Numa realização cheia de destrezas, Grace parte de uma reescrita de "Amores Surdos", texto teatral de sua autoria, para construir uma (quase) fábula sobre cicatrizes, pertencimento e reconstrução. A arguta fotografia de Wilssa Esser, coroada com um Kikito, dá ao filme uma atmosfera crepuscular, enquanto a trilha de Amaro Freitas amplia a dimensão sensorial do que se vê. Tudo é equilibrado. Tudo é tocante. Tudo nos alarma, até o benquerer, num debate sobre permanência e ancestralidade.