Cinema

"Guerrilha no Asfalto": Pavio lusitano

"Guerrilha no Asfalto": Pavio lusitano

Um dos diretores mais inquietos do cinema independente português da atualidade, com joias como "The Nothingness Club - Não Sou Nada" (2023) no currículo, Edgar Pêra dividiu créditos de direção de um filme sem segmentos, "3x3D", com duas lendas: Jean-Luc Godard (1930-2022) e Peter Greenaway. Seu nome, nos festivais europeus que buscam ousadia, é sempre bem-vindo, em especial naqueles, como Locarno, que não toleram narrativas feitas com base em algoritmos. É lá, em telas suíças, que nasce sua nova criação, "Guerrilha no Asfalto", com base em livro homônimo de Manuel Ricardo de Sousa, integrante de uma organização política de guerrilha que acabou linchado por uma multidão após um assalto a banco. Desses relatos se constrói uma expressão poética que é reflexiva sobre o próprio ato de filmar.

"Toda memória tem como alicerce um pensamento sobre o futuro. Sempre olho para o que estou a filmar como se fosse uma memória instantânea. Ou seja, um filme que está porvir é uma construção de memórias que só serão encaradas como tal, e decifradas, anos depois. No caso desse filme, que fala de um tempo de radicalismo, parti do desejo de fazer uma prosa e acabei por fazer poesia. Poesia é o espectro em torno uma palavra que nunca será capaz de nomear", explica o cineasta, que esmiúça sua mirada sobre pretéritos nada perfeitos na fotografia de Jorge Quintela. "Nossa violência, em Portugal, é um tanto amadora, e eu falo dela a explorar seu lado caricato". (R.F.)