Cinema

O muro real que a Alemanha não derrubou

Em 'Tomorrow a Long Time Ago', uma das atrações mais esperadas da reta final de Locarno, a diretora Luise Donschen revisita os fantasmas da reunificação alemã, num prisma de encanto

O muro real que a Alemanha
não derrubou

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

AAlemanha ainda tenta entender os fantasmas da reunificação, 36 anos depois de a queda do Muro de Berlim ter transformado radicalmente milhões de vida, alterando a solidez financeira de um território conhecido como "o motor da Europa". É desse trauma, e da capacidade de seguir em frente quando tudo ao redor parece ruir, que nasce "Tomorrow a Long Time Ago" ("Morgen vor langer Zeit"), uma das surpresas da reta final do Festival de Locarno. Em competição na seção Cineasti del Presente, o drama de tons líricos da realizadora berlinense Luise Donschen transforma a história recente de seu país numa viagem de delicadeza desconcertante, acompanhando Patty, uma mulher de 50 anos. Interpretada magistralmente por Gerti Drassl, ela fica sem emprego e perde, de lambuja, uma grande amiga, passando a colecionar objetos descartados - como sublimação de suas mágoas - até que seu próprio apartamento se torne inacessível. Quando já não consegue entrar em casa, ela parte para uma floresta, iniciando uma jornada que atravessa paisagens, memórias e a própria ideia de pertencimento.

Donschen conheceu aquele "antes" e "depois" ainda criança. Nascida e criada em Berlim, testemunhou os efeitos da reunificação dentro da própria família, embora reconheça que sua experiência tenha sido menos traumática do que a de muitos habitantes da antiga Alemanha Oriental. Seus pais perderam os empregos, mas seu pai pôde atravessar para Berlim Ocidental em busca de trabalho. O que mais marcou a diretora, contudo, foi a metamorfose dos objetos ao seu redor. "Foi a primeira vez na minha vida em que percebi que alguma coisa podia existir como um 'antes' e um 'depois' na realidade alemã", contou ao Correio da Manhã. "Aquilo que você tinha acabado de usar passava a ser considerado velho e era jogado fora, porque todos queriam coisas novas. Isso ficou muito marcado para mim, ainda criança."

É justamente nessa relação entre pessoas e coisas que Patty se torna uma espécie de cápsula humana da Alemanha pós-1990. Ela recolhe o que os outros descartam, mas não fica aprisionada ao passado. Ao contrário: sua trajetória é feita de partidas. "Sempre descrevi Patty como uma bola: ela consegue seguir adiante, deixar coisas e pessoas para trás. Ao mesmo tempo, ela coleciona objetos", explicou Luise. Para a cineasta, essa aparente contradição é essencial. Patty não acumula porque não consegue se desfazer das coisas, mas porque enxerga valor naquilo que o mundo decidiu abandonar. "Isso vale para objetos, árvores, animais, pessoas. E, mesmo assim, ela consegue deixar tudo para trás."

A solidão, portanto, não aparece em "Tomorrow a Long Time Ago" como uma sentença. Pode ser dolorosa, mas também oferece liberdade. Patty está sozinha porque perdeu pessoas, trabalho e referências, mas é justamente nesse vazio que começa a se movimentar. Donschen evita explicar psicologicamente sua protagonista, preferindo deixar que a atriz construa a personagem através de gestos, silêncios e pequenas alterações de comportamento. "Cinema não é reduzir, mas lançar muitas coisas para o espectador e torná-lo sensível a detalhes que normalmente não percebemos na vida cotidiana", afirmou. "Não estou feliz com a Alemanha atual", admite. "Preocupa-me o crescimento da direita em tantos países europeus, a violência entre as pessoas e o enfraquecimento das questões sociais."

Nesse sentido, a jornada de Patty ganha uma dimensão que ultrapassa sua história individual: é também a de um país que tenta descobrir como continuar caminhando depois de ter perdido uma parte de si.