Ao completar um quarto de século da atividade cinematográfica neste país, o troféu Grande Otelo bifurcou-se por duas trilhas - de eixo em Pernambuco - ao contemplar a categoria de Melhor Longa-metragem de Ficção (a mais disputada de suas 32 láureas), na última terça, levando Marianna Brennand e Kleber Mendonça Filho ao palco do Theatro Municipal. Ambos subiram com suas volumosas equipes, num caso único de empate nos 25 anos de celebração de autoralidades promovido pela premiação da Academia Brasileira de Cinema.
Radicalmente distintos na habilidade de conversar com plateias, diferentes sobretudo nas cifras que acumularam, os títulos vencedores, "Manas" e "O Agente Secreto", aproximam-se não só pelo DNA pernambucano em suas veias, mas, pela habilidade singular de arrebatar olhares de grandes mostras do audiovisual estrangeiro.
Não por acaso, no ano passado, quando houve a escolha de nosso representante para o Oscar, houve um racha envolvendo os dois. O primeiro teve seu parto no Festival de Veneza de 2024, conquistado (de cara) o Director's Award da Giornate degli Autori, viajou para telas nos EUA, na Alemanha, no México e, depois, disputou o Goya, na Espanha.
O segundo nasceu no Festival de Cannes de 2025, onde, em feito histórico, ganhou quatro prêmios, antes de vencer o Globo de Ouro de Melhor Filme Internacional e o de Melhor Ator (para Wagner Moura) e disputar o Oscar. Assemelham-se ainda no desejo de escancarar para o mundo intolerâncias do Brasil, sendo um - plenamente realista - focado na violência contra as mulheres e o outro, com veio alegórico, debruçado sobre desequilíbrios de estado. Nessas semelhas, sustentadas por múltiplas excelências, os dois dividiram a honraria batizada com a alcunha de um de nossos mais populares intérpretes, que, agora, por decisão do prefeito Eduardo Cavaliere passa a fazer parte do calendário oficial da cidade.
Esse anúncio assegura mais tranquilidade para a Academia Brasileira de Cinema, entidade hoje presidida pela produtora Renata Almeida Magalhães que luta em prol da autossustentabilidade da atividade cinematográfica, clamando por mais (e melhor) cota de tela para os nossos filmes. Não por acaso, os 350 profissionais associados à entidade não esqueceram a maior bilheteria de 2026, até aqui, "Velhos Bandidos", de Claudio Torres (com cerca de 430 mil pagantes) ao votar na categoria Melhor Comédia.
"Temos uma cinematografia de dar orgulho e que justifica toda a nossa insistência em produzir obras independentes que só nós podemos fazer. Valeu, vale e valerá a pena. Afinal, a nossa alma não é pequena", disse Renata, na abertura da cerimônia, dedicando-a ao mítico Barretão, Luiz Carlos Barreto (1928-2026), produtor morto no dia 22 de julho.
Desde a primeira edição, em 2002, quando venceu "Bicho de Sete Cabeças", de Laís Bodanzky, a premiação anual da Academia nunca de lado deixou nossos fenômenos, fossem de público ou de crítica, contemplando "Cidade de Deus", "Tropa de Elite 2", "Aquarius", "Marighella" e o oscarizado "Ainda Estou Aqui". Só nunca se viu vitória ex aequo, ou seja, empatada. Na decisão do Melhor Filme Ibero-Americano, empataram o luso-brasileiro-moçambicano "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho, com "Belén", da argentina Dolores Fonzi. No fim, veio o empate entre o drama de denúncia a crimes sexuais de Mariana Brennand e o thriller de Kleber.
"Manas" testemunha o processo de maturidade a fórceps de Marcielle/Tielle (Jamilli Correa), de 13 anos, num ambiente assombrado pela brutalidade contra as mulheres, nas águas da Ilha do Marajó (PA). Dira Paes é um dos destaques do elenco, num papel que surpreende a plateia. Coube à essa produção ainda os troféus de Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem Ficção e Melhor Atriz Coadjuvante (para Dira). "Viva as manas! Vamos quebrar o silêncio", clamou Marianna.
Centrado no Brasil da ditadura, em 1977, mas sem falar essa palavra ou citar nossos generais golpistas, "O Agente Secreto" acompanha os percalços de um professor e pesquisador da universidade pública do Recife acossado por matadores. Além da bola dividida com Marianna, ele recebeu os troféus de Melhor Direção de Arte, Melhor Efeito Visual e Melhor Direção de Fotografia - quatro no total.
"Queria agradecer ao Kleber por ter me apaixonado pelo Brasil a partir de seu olha", disse a francesa Emilie Lesclaux, companheira do cineasta e produtora de seus longas, celebrando o êxito comercial da produção. "Nós fomos muito felizes lançando o filme no Brasil, onde, graças ao trabalho da (distribuidora) Vitrine Filmes, chegamos a 2,5 milhões de espectadores".
Kleber falou na sequência, lembrando que a entrega do Grande Otelo "é uma festa de todos nós", mas contestou: "existe um ar sudestino que a gente precisa dissipar".
O título mais premiado da noite de 4 de agosto de 2026 da trajetória do Grande Otelo também fez muito bonito em circuito (quase 600 mil pagantes) e depois ganhou mundos via Netflix: "Homem com H", de Esmir Filho. O biopic de Ney Matogrosso levou seis troféus, entre os quais o de Voto Popular e (para surpresa geral) o de Melhor Ator, em que o cearense Jesuíta Barbosa (de fato sublime) destronou o favoritismo do baiano Wagner Moura (em "O Agente Secreto"). Os troféus de Melhor Documentário e Melhor Montagem de Narrativa Documental foram para "Apocalipse nos Trópicos", de Petra Costa, fita que também teve apelo internacional de peso em festivais como Veneza e San Sebastián.
Concebido para ser um Oscar do Brasil, como o César da França e o já citado Goya da Espanha, o Grande Otelo acertou em cheio ao demonstrar sintonia com longas que reverberaram planeta afora. Nestes tempos de arrecadações mirradas para o cinema nacional, quando cinco títulos de Hollywood ultrapassam a margem do bilhão em suas arrecadações ("Toy Story 5, "Michael", "Super Mario Galaxy", "Homem-Aranha: Um Novo Dia" e "A Odisseia"), aplaudir a habilidade de nossos filmes em dialogar com outras nações é expandir redes e ampliar nossa visibilidade.
Daí a lindeza que foi a vitória de "O Último Azul", nas categorias Melhor Atriz (para Denise Weinberg) e Melhor Coadjuvante, que coroou um Rodrigo Santoro cinquentão. Esse river movie de Gabriel Mascaro deu seus primeiros passos na Berlinale, onde ganhou o Grande Prêmio do Júri, celebrando o realismo mágico latino-americano, e terminou abrindo o Festival do Cairo, no Egito. Santoro, que estrelou "Bicho de Sete Cabeças" quando a Academia Brasileira de Cinema ainda engatinhava, depois de uma fase de desmonte em nosso audiovisual, emocionou o Municipal ao celebrar a reconexão com o público planeta adentro: "Que a gente nunca mais precise de uma Retomada", disse ao astro, sugerindo que sejamos contínuos. Oxalá!
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