Cinema

Desenraizamento nas raias do sonho

A tocante Chaya de 'Les Yeux Verts' abre o Festival de Locarno no encanto de uma produção belgo-sueco-francesa que atesta o talento à direção de Fanny Liatard e Jérémy Trouilh

Desenraizamento nas raias do sonho
A pequena Chaya em 'Les Yeux Verts' vê o mundo numa mirada de sonho com a grife da dupla de cineastas Fanny Liatard e Jérémy Trouilh (abaixo) Crédito: June Films

O primeiro presente que o 79° Festival de Locarno oferece à cinefilia internacional, no início do primeiro tempo regulamentar de sua partida na Copa das narrativas audiovisuais de invenção, é uma heroína, mas não daquelas fantásticas, em modo She-Ra, nem daquelas guerreiras tipo Charlize Theron (em "Atômica"), e, sim, uma criança... uma garota cuja arma é o sonho: Chaya.

Vivida pela belga de origem marroquina e espanhola Douae Butarbuch Mzaouki, a protagonista de "Les Yeux Verts" - filme de abertura do evento suíço, exibido ne quarta na Piazza Grande, o centro da mostra - é um corpo em trânsito, desenraizada do mundo árabe onde nasceu para se lançar no Velho Mundo, na região de Landes, na França, à beira-mar. Quando seus parentes descobrem que serão despejados, o irmão mais velho da guria, Nour, mergulha em um sono profundo e misterioso. Chaya fará de tudo para despertá-lo, chegando até mesmo a entrar em seus sonhos para encontrá-lo. Esse tom onírico, impresso no longa-metragem pela dupla de cineastas Fanny Liatard e Jérémy Trouilh (do festejado "Edifício Gagarine"), alinha-se com as ambições da direção artística da maratona cinematográfica organizada sob a curadoria de Giona A. Nazzaro, um crítico de Zurique.

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A dupla de cineastas Fanny Liatard e Jérémy Trouilh | Foto: June Films

A principal delas: mesclar o pop ao erudito, na grife autoral de Fanny e Trouilh em narrar os desacertos da contemporaneidade por prismas de gente bem moça, numa raia entre a infância e a adolescência. "Tentamos criar um conto sobre ritos de iniciação da perspectiva de uma menina de 11 anos que necessita se aliançar com o novo território que vem ocupar, carregando no verde de seus olhos o verde da floresta. A ideia era fazer 'um filme de autor de criança', se é que isso pode ser viável, assumindo o cotidiano num aspecto realista que muda conforme Chaya sonha", explica Fanny, via zoom, ao Correio da Manhã. "O desafio com nosso diretor de fotografia, Victor Seguin, era descobrir a linguagem do sonhar".

O roteiro filmado por ela e por Trouilh aborda, na situação física de Nour, uma condição neurológica chamada de "síndrome de resignação" ou "síndrome da apartia", que afeta jovens, a maioria delas em diáspora, num êxodo ligado a situações traumáticas. Quem sofre esse trauma "desliga", ou seja, para de andar, de falar ou mesmo de abrir os olhos. É uma das sequelas da violência da imigração. Essa moléstia é mais comum na Suécia, que entrou como coprodutora da saga de Chaya, com a França e a Bélgica.

"A travessia do Mediterrâneo é parte da experiência de Chaya e de sua família, até numa medida traumática, e o novo espaço território em que ela chega vai se transformando e até evoluindo em seu olhar infantil conforme ela, em sua inquietude, vai entendendo seu entorno", diz Trouilh ao Correio, num zoom. "Na casa para onde vai, há muitos elementos que criam laços simbólicos entre o território geográfico, europeu, para onde ela vai, e seu mundo interno. Ela consegue se manter livre ao trafegar entre essas duas instâncias. Nossa proposta, no desenvolvimento do filme, foi usar recursos de som para traduzir, numa sinestesia com a imagem, a medida de inquietação de Chaya".

Na direção de Doua, os cineastas usaram o desenho como forma de aproximar a menina dos tópicos que cercam "Les Yeux Verts". "Ela desenhava o que entendia de cada cena e, nessa expressão, compreendia tudo o que nós estávamos fazendo", disse Fanny.

Nesta quinta a competição pelo Leopardo de Ouro arranca, numa paradinha no Canadá, com "Manhunt", de Wayne Wapeemukwa. Dois jovens fogem de vidas sem perspectivas numa viagem de carro rumo à fronteira norte do território canadense. Reconfigurando um caso real de violência como uma parábola, o diretor a busca por um sentido para uma existência onde a brutalidade parece inescapável. No site oficial de Locarno, Wapeemukwa, explica que seu "Manhunt" busca reinterpretar um crime real numa mirada de estudo sobre a solidão, a masculinidade, a fantasia digital e o desejo colonial de recomeço"

Nesta quinta-feira, cogita-se que Isabella Rossellini estará na plateia da cópia restaurada de "Coração Selvagem" ("Wild At Heart", Palma de Ouro de 1990), de seu finado companheiro David Lynch (1946-2025). Ela interpretou Perdita nesse cult, ao lado de Laura Dern e Nicolas Cage. Antes, nesse mesmo dia, ela exibe uma antologia de curtas-metragens sobre o mundo animal que dirigiu, chamada "The (Many) Cinematic Worlds of Isabella Rossellini", recebendo, de lambuja, o Excellence Award, um troféu honorário sobre sua carreira.

Locarno termina no dia 15, com a sessão da comédia "Ni Vue, Ni Connue", de Marc Fitoussi, com Isabelle Huppert e Sandrine Kiberlain. A diva vive uma aspirante a atriz que sonha contar com as dicas de Sandrine - uma coqueluche em Paris - para explodir em seu ofício. Na mesma data rola a premiação oficial, com a presença do Brasil na caça ao Leopardo dourado com "A Margem do Rio", de de Matheus Farias e Enock Carvalho. Na mostra competitiva Cineasti del Presente, voltada para primeiros e segundos longas, Ana Vaz bate ponto com "Hanabi" ("Fire Flower"), reafirmando sua posição entre as vozes mais experimentais da contemporaneidade.