Correio da Manhã
Cinema

'Backrooms', o fenômeno silencioso que tomou as bilheterias de assalto

Baseado numa série de webvídeos criada por um youtuber de 21 anos, thriller de terror custou a 'bagatela' de US$ 10 milhões e faturou US$ 384,3 milhões mundo afora

'Backrooms', o fenômeno silencioso que tomou as bilheterias de assalto
Pague para entrar, reze para sair de "Backrooms", que reafirma a lucratividade do terror, com Chiwetel Ejiofor no elenco Crédito: A24

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Em tempos de apogeu do terror, quando o filão emplacou Oscars com "Pecadores" e "A Hora do Mal", um fenômeno silencioso - com status de cult - estabeleceu-se em circuito apoiado só no engenho e no assombro: "Backrooms: Um Não-Lugar". O que existe de "fenomenal" nesse thriller de causar vertigem pode ser explicado em números: baseado numa série de vídeos do YouTube, a produção de US$ 10 milhões faturou US$ 384,3 milhões mundo afora.

Essa conta vai crescer, pois, a partir desta quinta, o longa-metragem de Kane Parsons (um YouTuber de 21 anos) vai ganhar uma versão estendida, pulando de 110 minutos para 125 minutos da mais pura claustrofobia. Parsons transformou uma creepypasta (jargão das redes sociais para lendas nascidas na web) garimpada em fóruns online em um dos filmes de terror mais comentados do ano, consolidando o diretor como o mais jovem cineasta da história a liderar as bilheterias dos EUA e a adentrar o Top Ten das maiores arrecadações.

O roteiro parte da existência do chamado Backroom, uma dimensão paralela formada por corredores intermináveis, salas vazias iluminadas por lâmpadas fluorescentes e espaços aparentemente infinitos que reproduzem versões imperfeitas da realidade. Inspirado nesse imaginário digital, que se espalhou Facebook e Instagram afora, nos últimos anos, Parsons amplia o conceito para construir um feérico thriller psicológico, no qual o espanto nasce tanto de criaturas ocultas quanto da desorientação provocada por um labirinto sem saída. Dá tontura mesmo.

Na trama, Chiwetel Ejiofor (de "12 Anos de Escravidão") interpreta Clark, dono de uma loja de móveis que enfrenta problemas financeiros, alcoolismo e um recente divórcio. Depois de investigar estranhas oscilações elétricas no estabelecimento, ele descobre uma passagem secreta no porão que leva ao universo dos Backrooms. Ao retornar desse primeiro contato, tenta convencer sua terapeuta, Mary Kline (Renate Reinsve, de "Valor Sentimental"), da factual existência de uma realidade similar à nossa.

Cética, ela acaba acompanhando Clark em uma nova incursão ao local, onde ambos são confrontados por entidades sinistras, versões monstruosas de seres humanos e manifestações físicas de seus próprios traumas. "Escolho filmes que discutam a dramaturgia da falta do diálogo, hoje tão presente na sociedade", disse Renate ao Correio da Manhã.

À medida que avança, o filme abandona o terror convencional para mergulhar em questões psicológicas. Os espaços labirínticos passam a refletir as memórias, culpas e medos de seus personagens, revelando que os Backrooms funcionam como uma cópia defeituosa da realidade, capaz de assumir formas inspiradas nas lembranças mais dolorosas de quem os atravessa. A narrativa ainda apresenta a Async Research Institute, organização científica que pesquisa a misteriosa dimensão e tenta compreender suas propriedades.

Além de dirigir, Kane Parsons também assina parte da trilha sonora ao lado de Edo Van Breemen. O cineasta começou a publicar os primeiros episódios de "Backrooms" em seu canal Kane Pixels, no YouTube, em janeiro de 2022, chamando rapidamente a atenção de Hollywood. A adaptação foi anunciada no ano seguinte como uma coprodução da A24, Chernin Entertainment, Atomic Monster (do Midas James Wan, responsável por "Invocação do Mal") e 21 Laps Entertainment. O script, inicialmente desenvolvido por Roberto Patino, acabou sendo reescrito por Will Soodik, enquanto as filmagens ocorreram em Vancouver entre julho e agosto de 2025. O elenco reúne ainda Mark Duplass, como o pesquisador Phil; Lukita Maxwell e Finn Bennett, intérpretes do casal Kat e Bobby; Avan Jogia, como o explorador Naren Warne; e Krista Kosonen. Um dos personagens mais marcantes é o grotesco Capitão Clark, criatura inspirada no pirata da loja de móveis do protagonista, interpretado pelo ex-jogador de basquete Robert Bobroczkyi, de impressionantes 2,31 metros de altura.

O sucesso comercial confirmou que a aposta da A24 em uma propriedade nascida na internet encontrou eco junto ao grande público. "Backrooms: Um Não-Lugar" tornou-se a maior bilheteria da história do estúdio, o segundo filme de terror mais lucrativo de 2026 e o nono maior sucesso de bilheteria do ano. Animado com a repercussão, Parsons já confirmou que novos projetos ambientados nesse universo estão em desenvolvimento e que a websérie original continuará sendo produzida paralelamente às futuras expansões cinematográficas.

Outro filme custou "duas mariolas" e faturou uma baba aterrorizando plateias é "Obsessão", que já pode ser alugado na Prime Video. Custou (pasmem!) US$ 750 mil. Esse valor, na América Latina, é carnaval, mas, em Hollywood, é o troco do pão. Com tostões, seu realizador, o ator Curry Barker, construiu uma narrativa apavorante que vende igual pão quente e bateu a marca de US$ 430 milhões de maio para cá. Sua produtora, a Blumhouse, de Jason Blum, é fera em tirar ouro de onde só se enxergam níqueis.

"Eu faço filmes que estão abaixo da linha hollywoodiana padrão de investimento para que eu possa ousar sem margem de risco. Dessa forma eu posso garantir que todos os meus filmes possam encontrar espaço em sala de exibição, sem pular etapas. Essa é a minha filosofia", disse Blum ao Correio da Manhã, ao ser homenageado no Festival de Locarno, com um troféu em honra de seu histórico de êxitos comerciais, renovado com "Obsessão" de Curry. "Eu filmo barato ideias que ninguém faria".

Em "Obsessão", o vendedor Bear (Michael Johnston) ama sua melhor amiga Nikki, papel de Inde Navarrette. Incapaz de declarar seus sentimentos, ele encontra, numa lojinha tipo Mundo Verde, uma estranha peça conhecida como "One Wish Willow" (o Salgueiro dos Desejos), artefato capaz de realizar desejos. Ao quebrar o objeto e pedir para conquistar o coração da garota, Bear libera um diabo. Tome-lhe medo. Medo que fatura fortunas.