Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Crimes ligados a disputas fundiárias histórias do Brasil já inspiraram clássicos de distintas fases de nosso audiovisual, a se julgar o Cinema Novo de "Vidas Secas" (1963), em uma andança histórica de vigília que nos leva ao inédito "Não Tem Água Que Apague Esse Fogo". A produção feita pela ONG Criar Brasil acende nosso alerta em relação a violências que não cessam ao falar de corpos de camponeses perseguidos pela ditadura militar, que teriam sido queimados em fornalhas de usinas na Paraíba, segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF).
É nesse contexto de revelação da brutalidade contra os "operários do campo" que o documentário opera, resgatando a saga de resistência em defesa da democracia e da reforma agrária. O filme, com duração de 30 minutos, terá pré-estreia no Rio de Janeiro, nesta quarta (17), às 19h, na Sala 2 do Estação Net Rio. Passa ainda em João Pessoa (PB), no dia 29 de junho, às 18h, no Cine Aruanda. Sua narrativa traz depoimentos de filhos de vítimas. Cada fala revive (com saudade) a peleja de quem defendeu o direito à terra para os agricultores.
"Ouvimos depoimentos de jovens de 30, 35 anos que são de famílias atingidas por essa repressão no campo, e que só souberam da dimensão dessa luta ao ingressar na universidade", explica a roteirista e diretora Rosangela Fernandes. "O medo e o trauma silenciaram a geração que viveu perseguição, impedindo que a história fosse contada dentro das casas e nas comunidades para os filhos e netos, a tal ponto que os camponeses negaram sua identidade".
Sua dramaturgia narra a luta pela conservação da memória das pelejas do campo na Paraíba.
"As Ligas se estruturaram como organização dos camponeses, iniciando a luta pela reforma agrária e por direitos básicos em tempos em que as condições de trabalho eram análogas às da escravidão. Elas representam a semente de movimentos mais recentes como o MST", explica a roteirista e realizadora Rosangela Fernandes, que escreveu o filme com Marcelo Pitaro e assina a direção com Isabelle Gomes, Marina Vianna e Gustavo Souza. "O título é inspirado em uma frase de João Pedro Teixeira (liderança camponesa retratada no clássico "Cabra Marcado Para Morrer", de Eduardo Coutinho), que foi assassinado por latifundiários num período de grande repressão, em 1962, já na conjuntura de tensão que culminou no golpe civil-militar de 1964. João Pedro dizia que a luta nunca morreria, mesmo com a repressão e assassinatos dos líderes dos movimentos populares".
Não há como analisar a relevância das imagens e das falas retratadas em "Não Tem Água Que Apague Esse Fogo" sem que se crie uma parentela de sua pujança audiovisual com "Cabra Marcado Para Morrer" (1964-1984), que conta a história de João Pedro e Elizabeth Teixeira, líderes das Ligas e Lutas Camponesas de Sapé, na Paraíba.
"Nossa equipe visitou a casa em que eles viveram, hoje transformada em memorial, e que cumpre um importante papel na preservação da história" explica Rosangela. "Entrevistamos as atuais lideranças do memorial, a neta e a filha de Elizabeth e João Pedro. Eduardo Coutinho fez uma produção de grande valor histórico, em um momento difícil, inclusive precisando interromper o projeto durante a ditadura. Nossa intenção é revisitar esse passado, mas trazer à tona todas as consequências para a população do campo dos ataques ao Estado Democrático de Direito, inclusive o golpe de 2016, que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, e os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro".
Rosangela explica que hoje iniciativas como os memoriais das Ligas atuam para o resgate histórico. A ideia do documentário é contribuir para esse esforço coletivo de memória. "É uma homenagem que fazemos de forma respeitosa a todos e todas que participaram dessa luta. E, principalmente, aos que não se calaram e seguem se posicionando, mesmo num país em que a extrema direita hoje representa as mesmas forças de repressão do passado", diz Rosangela.
A partir da projeção carioca, no Estação, "Não Tem Água Que Apague Esse Fogo" será exibido na Rede TVT, TV Aberta em São Paulo. Haverá uma pré-estreia no Cine Aruanda, na Universidade Federal da Paraíba, UFPB, no dia 29 de junho.
"Depois, faremos um circuito de festivais e estamos disponíveis para quem tiver interesse em exibir o documentário e realizar debates sobre o tema", diz Rosangela. "Nossa intenção é fomentar a reflexão, especialmente, num ano eleitoral tão importante para o futuro do país".
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