Correio da Manhã
Cinema

Inclusão com ternura, com pagode, com Plim‑Plim

Em fase de renovação de sua linha de filmes, Estúdios Globo surfa nos códigos da comédia romântica aprendidos com sua 'Sessão da Tarde' e gera a delícia 'Deixa Acontecer'

Inclusão com ternura,
com pagode, com Plim‑Plim

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Existe uma escola de cinema no Brasil, em forma de programa, que alfabetizou este país nas manhas do audiovisual ao longo dos últimos 50 anos a ponto de virar um molde para a maneira com que nossa indústria audiovisual se expressa por códigos de gênero. Se um longa-metragem nacional for rotulado como "isso parece uma 'Sessão da Tarde'", leve a fala como um elogio, num sinônimo de fofura e potencial popularidade, ainda que ele rompa com o reclame padrão da TV: "E essa turminha muito louca vai se meter em altas confusões".

Tal ruptura se nota, e se celebra com a mais fina brasilidade, em "Deixa Acontecer", RomCom (comédia romântica) da mais fina brasilidade, que chega ao catálogo do Telecine nesta semana do Dia dos Namorados, disponível no Globoplay, na Prime Video e operadoras. É uma aposta em romance, música e representatividade, na luta contra o capacitismo.

Natalia Grimberg assina a glitter a direção desta delicinha que marca a nova leva de investimento dos Estúdios Globo (o ex-Projac) na produção de narrativas fílmicas, com base em roteiro de Renata Corrêa, que dosa reflexão social e afeto sem perder a ternura jamais.

Profissionais de vasta tarimba na TV aberta, como o diretor de fotografia Alexandre Fructuoso (em inspirado traquejo com a luz das narrativas cômicas sobre benquerer), alinham-se com a meta dos Estúdios de gerar filmes, fora dos moldes das novelas, a fim de transformar "Deixa Acontecer" em um divertido reencontro com os códigos de marcos como "Uma Linda Mulher" (1990) ou "Como Se Fosse A Primeira Vez" (2004), vistos e revistos na "Sessão da Tarde".

"Bebi dessa fonte, mas numa busca de ser singular, num desejo de 'vamos fazer diferente', com a impressão de que as nossas comédias românticas mais fortes, aqui no Brasil, historicamente, foram as novelas. E é com uma equipe de boas e bons profissionais aqui dos Estúdios, como é o Fructuoso, que a gente vem investir no gênero", diz Natalia ao Correio da Manhã, numa sessão num dos auditórios do Plimplim, na Zona Oeste.

Escalando um ator em fase de apogeu (João Vítor Silva, de "Cinco Tipos De Medo" e "O Agente Secreto") como uma espécie de Hugh Grant pagodeiro, "Deixa Acontecer" segue os rumos da estudante Marina (Paola Antonini), uma jovem mineira que decide deixar Uberlândia para cursar Medicina no Rio de Janeiro, determinada a conquistar sua independência. A prótese de metal que usa a substituir um de seus membros inferiores costuma ser um indício de alerta para sua mãe (Camila Morgado) e seu pai (Danton Mello), muito carinhosos com a moça.

Amputada ainda na infância, Marina cresceu aprendendo a não se deixar sufocar pelo excesso de superproteção em seu lar, desenvolvendo uma autoestima de dar inveja. Ao ser aprovada em uma renomada universidade pública carioca, ela vê a mudança como uma oportunidade de provar que é capaz de conduzir a própria vida, sem que ninguém a conduza pela mão. O caso é que o Cupido atira suas flechas quando menos esperamos.

"Atuação requer muito estudo, muita entrega, e eu percebi que precisava dar tudo de mim para a personagem", diz Paola, modelo e influenciadora digital que perdeu a perna esquerda em um acidente de carro, em 2014, e mantém um instituto com seu nome para inspirar PCDs (Pessoas Com Deficiência) na recuperação.

Numa delicada composição em cena, ela transforma Marina numa mulher obstinada, que vai se meter numa encrenca amorosa ao chegar ao Rio com as amigas Pri (Klara Castanho) e Thayz (Lais Lage) e, de cara, perder todo o seu dinheiro e seus cartões de crédito. Numa dessas ciladas da sorte que o Amor dá na gente quando não quer levar crédito por seus feitos, ela vai cruzar o caminho do bamba do molejo romântico João Mendes (João Vitor Silva), o Brabo. Apesar da fama e do sucesso, o cantor atravessa uma crise pessoal e profissional após ser alvo de um cancelamento público, situação que ameaça sua carreira e sua imagem perante tietes. A fim de reverter a situação, seu empresário, Bebê (Douglas Silva, em inspirada atuação), idealiza um relacionamento de fachada que possa ajudar a recuperar a popularidade do artista. Marina aceita participar do acordo por enxergar nele uma forma de demonstrar estabilidade à família e permanecer no Rio. O que começa como uma estratégia conveniente para ambos, no entanto, abre as portas para uma paixão. Na dinâmica artística que o roteiro de Renata trouxe para o elenco e para Natalia, muita desconstrução de arquétipos se fez, sobretudo no Brabo.

"Eu não me via na função de galã, nem na condição de parecer bonito, pois gosto muito de parecer diferente a cada papel. Por isso fiz o João Mendes mais solto, pequeno", disse João Vítor, ator que se destaca por seu estado de presença a cada atuação.

Método similar se passa com Mariana Ximenes, que põe o filme no bolso em sua aparição no papel de uma repórter que é usina de fofocas. "Fiz um pot-pourri de muito jornalista que encontrei, embora tenha muito respeito pela profissão. Tenho um tio jornalista que sempre me deu dicas de como tomar cuidado com a imprensa, que é parte da vida da gente".

Destacam-se ainda na tela Débora Lamm, Ed Gama, Caio Cabral, Duda Brack e Ricardo Cubba, hilário no papel do aspirante a ator (e recepcionista de hotel) Lucinho. A produção também conta com participações especiais de nomes ligados ao pagode, como Dudu Nobre, Arlindinho, Marvvila, Vitinho e Feyjão. Dessa mistura toda, nasce uma belíssima surpresa, que recicla a tradição das fábulas pé no chão com açúcar e com afeto.