Correio da Manhã
Cinema

Brasis para a China ver e a Ásia toda aplaudir

Produções nacionais conseguem espaço nobre no Festival de Xangai, incluindo 'O Deserto de Luiza' e a animação 'Amadeo e o Hipotético Mundo Novo'

Brasis para
a China ver e a Ásia toda aplaudir

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Lá se foi um ano desde a passagem de "Cyclone", de Flavia Castro, como representante oficial do Brasil num dos faróis mais bem iluminados das competições de cinema da Ásia, o Shanghai International Film Festival, que aproveita este 12 de junho, Dia dos Namorados, para declarar, uma vez mais, seu fascínio pela produção audiovisual de nosso país... e da América do Sul. Tem uma delegação nacional indo para a maratona chinesa, que abre sua 28ª edição, com 420 títulos de distintos continentes. Paralelamente a essa carreata de artistas e agentes culturais, o cinema brasileiro integra o rol de produções de diferentes cantos do país indicadas a prêmios na China.

"O Deserto de Luiza", de Allan Minas, é uma delas, incluído na competição oficial de longas-metragens de 2026, que tem o ator Tony Leung ("Amor à Flor da Pele") como presidente do júri. Realizador do doce "A Família Dionti" (2015), Minas concorre com os chineses "Atlantic Rhapsody", de Zhong Kaifeng, e "The Great Skull", de Liu Xiaoyang; o marroquino "Halima", de Yassine El Idrissi; o belga "Iluminada", de Nicolás Rincón Gille; o indonésio "My Own Last Supper", de Ismail Basbeth; a coprodução turco-alemã "Night of Blindness", de Reis Çelik; o russo "Sea Sons", de Daniil Merkulov; a produção chinesa de Hong Kong "Secret in the Box", de Frankie Tam Kwong Yuen; o alemão "Superbuhei", estreia na direção de Josef Brandl; a coprodução franco-alemã "The Miserable Mother", de Susanne Heinrich; e o canadense "The Parking Spot", dirigido por Louis Godbout.

"Depois de tantos anos envolvido na realização de 'O Deserto de Luiza', é natural ansiar por uma boa estreia para o filme. Entretanto, lançá-lo no Festival Internacional de Cinema de Xangai superou as minhas expectativas", disse Minas ao CORREIO DA MANHÃ. "Além das pesquisas que tenho feito para me aproximar ainda mais do festival e de seu próprio país, eu me flagro divagando sobre os caminhos de um filme, a despeito dos nossos planos".

Com produção de Daniela Vitorino, "O Deserto de Luiza" reúne em seu elenco Daniela Fontan, Nina Prado, Veronica Debom, Vivi Sabino, André Luiz Miranda e Thelmo Fernandes. Sua trama segue Luiza, uma adolescente tímida de 15 anos e apaixonada por desenho, que entra no grupo de graffiti da escola e vivencia o primeiro amor. Quando a mãe da jovem sofre um surto psicótico, sua família desmorona. Na tentativa de reconstruí-la, Luiza terá de enfrentar o medo, a solidão e o preconceito, além de descobrir seu próprio caminho para ser feliz.

"Como será o olhar do público chinês para o filme? Que elementos, comuns ou diversos, nos conectam?", questiona Minas. "O espaço que preciso percorrer até o outro lado do mundo é instigante. Um longo percurso talvez seja necessário para eu ter tempo de me esvaziar e me preparar para o que virá. Estou indo conhecer uma cultura milenar que, ao mesmo tempo, aponta para um futuro que muitos de nós desejamos ter. Isso me faz pensar que estarei atravessando outra distância, ainda maior do que o espaço. Estarei atravessando o tempo".

O colegiado escalado para julgar "O Deserto de Luiza" e seus rivais no 28º Festival Internacional de Cinema de Xangai é encabeçado por Leung e reúne a produtora tunisiana Dora Bouchoucha; o diretor chinês Guan Hu; o realizador do Quirguistão Aktan Arym Kubat; a diretora e roteirista georgiana Déa Kulumbegashvili; a roteirista, diretora e produtora mexicana Fernanda Valadez; e a atriz chinesa Xin Zhilei. A ser inaugurada nesta sexta-feira por "Afterpiece", de Keane T. K. Wong, produzido por Derek Yee, a maratona chinesa abriu espaço para o Brasil também em sua seleção de estreias animadas competitivas. Na competição de animação, entrou "Amadeo e o Hipotético Mundo Novo", dirigido por Brenda Lígia e Edu Felistoque. O enredo é uma fantasia que acompanha o jovem Amadeo, de origem africana, um menino sensível e genial que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus. Em meio ao Brasil de 1830, ele utiliza sua criação para ajudar na libertação de pessoas escravizadas, enquanto vive um amor impossível pela filha de um poderoso barão.

"É uma alegria ver nosso filme 'Amadeo' nascendo do outro lado do mundo", diz Brenda no material promocional do longa. "Nossa animação é muito plural, pois é composta por uma equipe diversa, tem gente de Pernambuco, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Alagoas, e até Guiné Bissau! Tem branco, preto, jovem, idoso, anônimo, famoso... parece um sonho o fato da nossa estreia mundial ocorrer na China! Me sinto preparada e ansiosa para conhecer este 'novo mundo'".

O festival segue até o dia 21 e vai prestar um tributo ao diretor inglês Ken Loach, um ícone da estética marxista ganhador de duas Palmas de Ouro em Cannes, com "Ventos da Liberdade" (2006) e "Eu, Daniel Blake" (2016).