Spielberg mais Spielberg... e mais vibrante... do que "Dia D" ("Disclosure Day") há muito, mas muito mesmo, não se via. Aquele ritmo de "Sessão da Tarde" de sua obra logo após "Tubarão" (1975), mas com uma complexidade política digna de seu (injustiçado) "Munique" (2005), faz cama para uma espécie de autópsia em corpo vivo de sua própria filmografia, liberta pelo belo "Os Fabelmans" (2022) da atmosfera crepuscular que vinha embotando seus passos recentes (e nem sempre felizes) na direção, como o dispensável "Amor, Sublime Amor" que lançou em 2021.
Sua nova (e vívida) expressão autoral, pautada por um roteiro avesso a obviedades, mas aberto a hipóteses metafísicas, mistura o Spielberg a belo canto de "The Sugarland Express" ("A Louca Escapada", no Brasil), coroado com o Prêmio de Melhor Roteiro em Cannes, em 1974, ao Spielberg (também primaveril) de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977), mas com toda a maturidade dramatúrgica que trouxe de sua oscarizada fase dos anos 1990, sobre a II Guerra, com "A Lista de Schindler" (1993). O cuidado com que embala a ficção científica é notável. Faz parecer uma ode ao gênero, em seu espaço de debate sobre a natureza (humana).
Povoam "Dia D" alguns heróis humanizados... vulneráveis... do tipo que o diretor tanto aprecia, por dar uma alternativa ao heroísmo super-humano de HQs, pouco atraentes para uma cabeça que, de quadrinhos, gosta mesmo é do moleque detetive Tintin, de Hergé. A apresentadora do tempo Margaret Fairchild (Emily Blunt), que apresenta dons de empata (paranormalidade que mexe com o sentimento de seus alvos, sensibilizando-os com lembranças más ou boas), pode até demonstrar essa habilidade sobre-humana, mas sangra, sofre e se apavora como qualquer um de nós. Típico de Spielberg... Vale o mesmo para o bamba de tecnologia que vaza dados em nome do bem-estar global, Daniel Kellner (um Josh O'Connor enfim carismático e livre de seus habituais truques de atuação), crânio em números que consegue decifrar códigos raros. Junta-se com destaque à dupla o ativista em prol do livre conhecimento (o tal "disclosure" do título original) acerca do que as teorias da conspiração levantam de hipótese: Hugo Wakefied, signo de temperança intelectual composto por um Colman Domingo nas raias da brandura, com seu falar melífluo. É difícil olhar para ele sem suspeitar de que o argumento do filme, que o próprio Spielberg escreveu, tenha batizado essa figura em homenagem a Hugo Gernsback (1884-1967), o inventor e editor, responsável pelo periódico de históricas sci-fi "Amazing Stories", de 1926.
Margaret (que extrai uma pulsante atuação de Blunt), Daniel e Hugo se unem na progressão aritmética da revelação de tudo o que o governo dos EUA escondeu, desde 1947, acerca da presença de alienígenas na Terra (tema do coração do realizador de "E.T., O Extraterrestre"), a partir das ações de uma Ong (armada e perigosa) chamada Wardex. A data acima trata de um possível acidente ufológico com uma nave em Roswell, no Novo México.
O festejado disco voador de Roswell teria sido escondido pela Wardex. Hugo era parte dessa organização, mas estava lá para descobrir o que anunciar ao mundo. Quem veste a camisa de tamanho fundamentalista desse grupo é a mais fascinante figura de "Dia D", um sujeito que cumpre com as exigências dramatúrgicas de um vilão, mas é composto com uma variedade de inquietações afetivas capaz de transcender arquétipos: Noah Scanlon. O personagem tem tudo para expandir o já imenso prestígio de seu intérprete, Colin Firth. Uma frase traduz a sanha de controle dele: a informação sobre aliens entre nós "é um vírus contra o qual a Humanidade não tem nenhuma imunidade". O ganhador do Oscar por "O Discurso do Rei" (2010) se habilita a brigar por novas estatuetas na atuação mais visceral de sua carreira nos últimos 15 anos.
Com Firth (quer dizer, com Scanlon), há outra boa interpretação que salta aos olhos, a de Henry Lloyd-Hughes como Casper Boyd, operativo da Wardex que não poupa pólvora e chumba para silenciar alvos. Esse, sim, é aquele "mau feito pica-pau" das narrativas de almanaque. Sua presença em cena é estratégica. Amplia o tom de risco do enredo.
Amadurecida nas estruturas e rubricas do roteirista David Koepp, que escreveu "Jurassic Park" em 1993, e "O Mundo Perdido", em 1997, a premissa criada por Spielberg em "Dia D" põe a Wardex em colisão com um time de pessoas comuns, mas conscientes de que um país não se faz com meias verdades, num momento de tensão econômica, com falências anunciadas, com lojas quebrando. Num contexto que espelha as ansiedades da América de Trump, o mais bem-sucedido fabulador de Hollywood entrega uma alegoria reivindicante (mas de certa medida mais conciliatória do que belicosa) do direto ao conhecimento numa dinâmica de fake news. O teatro da ilusão que rege as manobras políticas, a partir das redes sociais, apenas disfarça uma caveira de burro enterrada em seu pavimento. É esse "esqueleto guardado no porão", ou seja, a microfísica da manipulação que um Spielberg em estado de graça tenta expor. Um Spielberg em plena sintonia com os mandamentos da era dos extremos (a década de 1970) que revelou seu nome como artista, na dita Easy Rider Generation, quando o cinema dos Estados Unidos foi expor as tripas de sua pátria em tela, por vias revolucionárias, com Coppola, Scorsese, Woddy Allen, Elaine May, Melvin Van Peebles, Bob Rafelson, Brian De Palma em ascensão.
Para fazer isso, como seus contemporâneos da chamada Nova Hollywood fizeram, o artesão que Spielberg é coloca em prol das narrativas cinematográficas toda a sua destreza. Assegura às massas uma das melhores sequências de adrenalina do ano (uma perseguição num trem), a fim de ficar livre para inventar sinestesias com seus dois habituais parceiros, o compositor John Williams (numa de suas melhores trilhas sonoras) e o fotógrafo Janusz Kaminski. Mais jovem voz artística de sua trupe, a editora Sarah Broshar, é quem alinhava tudo, numa montagem... hã... digamos... spielberguiana.
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