Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Aos 57 anos, completados em 1º de março, Javier Ángel Encinas Bardem vive uma fase rara na trajetória de um astro: aquela em que prestígio artístico, relevância política e apelo popular caminham lado a lado. Premiado com o Troféu Donostia no Festival de San Sebastián de 2024, distinção que acabou recebendo um ano depois do previsto em razão da greve dos atores de Hollywood, o espanhol atravessa um momento de plena maturidade criativa. Se Cannes o aplaudiu recentemente pela potência dramática de "El Ser Querido", de Rodrigo Sorogoyen, as plataformas de streaming o transformaram novamente em assunto obrigatório graças à série "Cape Fear", já disponível na Apple TV e também acessível por meio dos canais da plataforma dentro do Prime Video.
Na produção, Bardem assume um desafio que poucos intérpretes ousariam encarar: revisitar Max Cady, personagem eternizado por Robert Mitchum em 1962 e recriado por Robert De Niro no clássico dirigido por Martin Scorsese em 1991. Agora, sob supervisão executiva de Scorsese e Steven Spielberg, a trama ganha formato de minissérie em dez episódios, desenvolvida por Nick Antosca para a Apple.
A nova abordagem amplia a psicologia dos personagens e mergulha em zonas morais mais ambíguas. Amy Adams e Patrick Wilson vivem o casal de advogados Anna e Tom Bowden, cuja vida entra em colapso quando Max Cady deixa a prisão e retorna disposto a acertar contas. Diferentemente das versões anteriores, a série investe menos no terror físico e mais na corrosão emocional provocada pela culpa, pela manipulação e pela fragilidade das verdades jurídicas.
Bardem transforma Cady numa figura simultaneamente monstruosa e sedutora. Críticos americanos têm destacado justamente essa capacidade de gerar desconforto no espectador, que em diversos momentos se vê questionando quem merece sua simpatia. A série atualiza a paranoia do romance "The Executioners", de John D. MacDonald, para um mundo marcado por desinformação, revisionismos e desconfiança institucional.
Mas a temporada de Bardem não se resume ao streaming. Em Cannes, o ator espanhol voltou a demonstrar a intensidade que o transformou num dos intérpretes mais respeitados do cinema contemporâneo. Em "El Ser Querido", primeiro trabalho de Rodrigo Sorogoyen a disputar a Palma de Ouro, ele interpreta Esteban Martínez, cineasta renomado que reencontra a filha atriz durante as filmagens de um longa e é obrigado a confrontar décadas de ressentimentos familiares.
A produção abriu um dos debates mais acalorados da Croisette neste ano. O reencontro entre pai e filha transforma-se numa investigação emocional sobre orgulho, afeto e reconhecimento. Ao lado de Victoria Luengo, Bardem conduz uma batalha interpretativa que confirma a sintonia entre o ator e uma geração de realizadores espanhóis interessados em explorar as fissuras da identidade contemporânea.
Foi durante a divulgação do filme que o ator voltou a usar sua visibilidade para tratar de questões políticas. Fiel a uma trajetória marcada pelo ativismo, ele reiterou seu posicionamento sobre a guerra em Gaza. "Estou a tentar ser mais empático a cada dia. Estou a ficar mais velho e noto que certos fatos não mudam. O genocídio em Gaza é um fato. Posso ajudar de forma humilde trazendo esse assunto à baila. A mobilização muda situações. É importante poder olhar ao espelho e estar afinado com a sua ética", afirmou diante da imprensa internacional.
A disposição para o confronto público acompanha Bardem desde os tempos em que se consolidou como um dos rostos mais importantes do cinema europeu. Filho da atriz Pilar Bardem e integrante de uma das famílias mais tradicionais das artes espanholas, ele construiu uma carreira guiada por escolhas arriscadas. Foi indicado ao Oscar por "Antes que Anoiteça", recebeu nova nomeação por "Biutiful", venceu em Cannes por esse mesmo filme em 2010 e entrou definitivamente para a história da Academia ao conquistar a estatueta por "Onde os Fracos Não Têm Vez", dos irmãos Coen, em 2008.
Seu período mais recente talvez seja o mais impressionante. Vieram "Todos Já Sabem", "Being the Ricardos", "A Pequena Sereia", "Duna", "Duna: Parte Dois", "Monstros: Irmãos Menendez", "El Buen Patrón", pelo qual voltou a ganhar o Goya, e agora "El Ser Querido" e "Cape Fear". Poucos intérpretes europeus conseguiram circular com tanta naturalidade entre o cinema de autor, os blockbusters e as séries de alto orçamento.
Ao receber o troféu Donostia, em San Sebastián, em 2024, Bardem foi celebrado justamente por essa capacidade de unir prestígio e popularidade. O festival basco reconheceu uma filmografia construída ao longo de quatro décadas e marcada por colaborações com cineastas como Alejandro González Iñárritu, Fernando León de Aranoa, Milos Forman, Woody Allen, Darren Aronofsky, Asghar Farhadi, Ridley Scott e os irmãos Coen.
O próximo capítulo dessa trajetória já está marcado. No fim deste ano, Bardem regressará aos cinemas em "Duna: Parte Três", conclusão da trilogia de Denis Villeneuve inspirada na obra de Frank Herbert. O ator volta ao papel de Stilgar, líder fremen que se tornou uma das figuras mais carismáticas da saga. O lançamento está previsto para dezembro e deverá colocá-lo novamente no centro de uma das maiores produções de Hollywood.
Entre o prestígio dos festivais, a força das plataformas e o gigantismo das superproduções, Javier Bardem parece atravessar uma fase em que cada novo trabalho reforça o anterior.
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