Rodrigo Fonseca*
Especial para o Correio da Manhã
Rola esta noite, em Nova York, na sala Village East, a última sessão do longa brasileiro "Funk" na Competição Internacional do Festival de Tribeca, depois de um fim de semana consagrador para o novo longa-metragem de Aly Muritiba ("Barba Ensopada de Sangue") e sua estrela, Duda Santos. Num Rio machista, sua personagem, Sabrina, reina no pancadão dos bailes. Divo do Brasil no mundo, premiado por Cannes e pelo Globo de Ouro, o baiano Wagner Moura teve seu espaço sob os holofotes, na maratona cinéfila nova-iorquina (criada por Robert De Niro há 25 anos), no elenco do drama "The Last Day", de Rachel Rose.
No sábado e no domingo, o evento americano conferiu os novos passos do astro de "O Agente Secreto" ao lado da sueca Alicia Vikander (que filmou "O Jogo da Rainha", com o cearense Karim Aïnouz). Inspirado em "Sra. Dalloway", de Virginia Woolf, o longa narra o bloqueio criativo da escritora Julia (Alicia), às voltas com um antigo amor chamado Peter (Wagner). É uma trama sobre revisão de carreira e reconstrução de caminho, dois processos que marcam Tribeca dentro e fora das telas, uma vez que sua programação é um convite para astros de prestígio de Hollywood redesenharem seus rumos, em projetos indie. É o caso de "Clean Hands", com Zach Braff.
Aclamado nos anos 2000 nas veredas da comédia com a série médica farofa "Scrubs", hoje de volta ao streaming, Braff abre a mão da gargalhada no thriller baseado numa história verídica, que o leva agora, às telonas de NY, no papel do policial Kevin Simmers, um agente da brigada antidroga que luta contra o agravamento da dependência de opiáceos da sua filha de 19 anos, Brooke (Esther McGregor). Acostumado a limpar as ruas de Hagerstown, Maryland, uma rota da heroína, ele vê a pessoa que mais ama lutar contra o vício, em casa, repensando as táticas de guerra contra os narcóticos. É um trabalho que pode levar Braff ao Oscar.
"A gente amadurece, mas não perde o tom", disse o astro ao Correio da Manhã, numa entrevista mediada pela Golden Globe Foundation, ao falar das guinadas de sua carreira com a retomada de "Scrubs". "É preciso preservar o tom de loucura das personagens, mas entender que eles envelhecem e o mundo muda".
Castigada como deu pela vida ao longo de seus seis anos de casamento com Tom Cruise, Katie Holmes também está em Tribeca para se refazer... mas como cineasta. Ela dirige e estrela o que promete ser um dos maiores sucessos do festival: "Happy Hours". Nele, reencontra seu colega da série "Dawson's Creek": Joshua Jackson. A atriz e cineasta interpreta a recém-divorciada fotógrafa Liz, sempre rodeada de casais felizes. Ao passar por uma livraria que anunciava uma palestra com um escritor de livros de viagens, Liz fica paralisada ao perceber que o sujeito foi seu namoradinho de colégio. Esse é o papel de Joshua, que surpreende a crítica com sua boa atuação. Por meio de um trabalho fortuito, Liz fotografa Andrew, e os dois retomam o convívio (e quiçá o amor) de onde pararam, reacendendo a chama, confidenciando-se um ao outro e superando velhas feridas. À medida que a fantasia de uma vida com Andrew se torna mais próxima da realidade, Liz tem de decidir se está pronta para se permitir amar novamente.
Outra reinvenção... e das mais improváveis... deste Tribeca: Dustin Hoffman. Aos 88 anos, a um passo de lançar sua autobiografia, "Look At Me", agendada para novembro, o astro de "Kramer vs. Kramer" (1979) e "Tootsie" (1982) foi escanteado por uma série de polêmicas, ameaçado de "cancelamento". Ganha agora uma chance de noivas ribaltas em "The Revisionist", de Alex Vlack, ao lado de Alison Brie, a Maligna do recém-lançado "Mestres do Universo". Ela vive Elise Keller, uma escritora de sucesso ocupada com o que pode ser o seu próximo best-seller. Só há um problema: ela está sofrendo de um grave bloqueio criativo. Quando o seu amigo de longa data, John (André Holland), regressa à sua cidade natal, Elise pensa ter encontrado a solução perfeita para seus problemas domésticos. John pode cuidar do pai idoso do seu marido, Jacob (Tom Sturridge), o sogrão David (Hoffman). A ideia é que seu camarada consiga gravar os papos geniais do coroa para potenciais inspirações literárias. À medida que as relações individuais se aprofundam e a linha entre ficção e realidade mingua, segredos são desenterrados, limites são ultrapassados e o quarteto vê-se mudado para sempre.
Badalados na TV, a inglesa Emilia Clarke ("Game of Thrones") e o venezuelano Edgar Ramírez ("Carlos") reciclam suas personas numa love story que Tribeca pode transformar em um ímã de bilheterias polpudas: "Next Life". Em seu enredo, Ivy (Emilia) conhece um músico de jazz cheio das bossas (Ramírez) no trem, numa manhã decisiva, quando se abrem duas linhas temporais distintas em sua rotina. Numa delas, Ivy se apaixona por esse desconhecido. Na outra, ela volta a se encontrar com o seu ex-noivo (Jack Farthing).
Para sua reta final, no próximo fim de semana, a maior promessa de Tribeca é o épico "Young Washington", com William Franklyn-Miller no papel central e Mary-Louise Parker, Andy Serkis, Kelsey Grammer e Ben Kingsley a seu lado. É um estudo sobre a formação do Poder do líder político George Washington (1732-1799).
Apoteose de peso para a produção documental, sobretudo a anglo-americana, Tribeca pode fazer de "Frampton" um dos maiores êxitos de não ficção em 2026. Comemorando o 50° aniversário do LP "Frampton Comes Alive", este documentário retrospectivo sobre a carreira de Peter Frampton é um retrato inspirador do lendário guitarrista e cantor, que continua a atuar até aos dias de hoje, com uma voz rouca singular e riffs de guitarra impecáveis. "Do You Feel Like We Do", "Baby, I Love Your Way" e "Show Me the Way" estão entre os maiores hits do disco retratado na fita. "Frampton Comes Alive" é considerado o álbum ao vivo mais vendido da história e seu prestígio sobrevive nesses tempos de música digital. Sozinho o hit "Baby, I Love Your Way" soma mais de 110 milhões de execuções no streaming.
Filmado pelo músico Rob Arthur, integrante de longa data da banda do ídolo do cancioneiro britânico, o longa oferece a Peter - que nasceu em Bromley, no Reino Unido, em 1950 - chance de recordar, nas suas próprias palavras, como ganhou destaque nos conjuntos The Herd e Humble Pie. Ambos foram essenciais antes de ele se tornar artista solo e viver uma ascensão meteórica. O álbum ao vivo reúne registros feitos durante a turnê estadunidense do músico em 1975 com registros de shows em San Francisco, Los Angeles, Long Islan e Nova York.
A partir deste disco, Frampton experimentou uma ascensão meteórica. Seu trabalho seguinte, o álbum de estúdio gravou "I'm in You" (1977) foi bem sucedido em ambos os lados do Atlântico e, mais tarde, "Breaking All the Rules" (1981) consolidaria de vez a carreira do guitarrista. Em 2019, Frampton foi diagnosticado com Miosite de Corpos de Inclusão (MCI), uma doença muscular degenerativa e progressiva. A enfermidade causa fraqueza muscular e afeta principalmente os membros, o que limita seus movimentos e dificulta a habilidade de tocar guitarra.
Mesmo assim, sua paixão pela música o mantém na ativa com uma agenda moderada de apresentações ao vivo e a gravação de alguns álbuns, com destaque para "Frampton Forgot the Words" (2021) com versões instrumentais de canções que ele gosta, da autoria de outros artistas. Este ano, na esteira de tantas celebrações de seu aclamado "Frampton Comes Alive", o artista lançou o autoralíssimo "Carry The Light".
Maior achado de Tribeca em 2025, a comédia romântica "O melhor De Nós Dois" ("The Best You Can"), de Michael J. Weithorn, com o casal Kyra Sedgwick e Kevin Bacon, acaba de chegar ao Brasil, via Prime Video. Ele vive Stan Olszewski, um segurança que frustra uma tentativa de roubo na residência da urologista Cynthia Rand (Kyra). Uma amizade intensa se desenvolve entre eles a partir de mensagens de texto bem-humoradas, enviadas tarde da noite. O aprofundamento do vínculo entre eles abala a vida de ambos... para o bem.
*Colaborou Affonso Nunes
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