Violências que latem pelos palcos de Curitiba

Agitado por monólogo de Casagrande e pelo animado 'Jonathan', Festival de Curitiba abre seu palco para o aclamado 'O Motociclista no Globo da Morte', com Eduardo Moscovis

Por Rodrigo Fonseca

Num palavreado melífluo, garganteado com calma, Eduardo Moscovis expõe um caso de violência contra um cãozinho em 'O Motociclista no Globo da Morte'

Muita gente que passar pelo Teatro Paiol no 34º Festival de Curitiba, neste sábado, há de se lembrar (com pesar no peito) do caso imperdoável da execução do cachorro Orelha, depois de assistir ao memorável “O Motociclista no Globo da Morte”. O texto de Leonardo Netto, dirigido por Rodrigo Portella, põe o ator Eduardo Moscovis para expor a violência humana – em seu grau mais pantagruélico - num monólogo aclamado pela crítica e pelo público no Rio de Janeiro. Nele, a condição de “bicho”, no que essa palavra tem mais feroz, cabe ao Homem.


Seu protagonista, Antônio (Moscovis, no apogeu de suas investigações cênicas), tem carregado um peso no coração, após uma situação trágica que refuta sua natureza outrora considerada pacífica. Tudo parte de uma confusão no Bar do Zeca, botequim onde a atendente Rita (da qual só ouvimos falar) vive à mercê de gaviões. Ronda a clientela um cachorro sonso, a quem o personagem de Moscovis batizou de Pingado, por conta da cor de sua pelugem, que lembra café com leite.

O episódio conflituoso em questão, lá no Zeca, revivido como se fosse uma homilia, envolve um outro Antônio. Tinha um casca-grossa lá, também chamado Antônio, abusado, machista, fiel à tese de que “é da natureza do humano ser desumano”, até com os animais. Ele vai levar seu xará ao limite do processo civilizatório de uma sociedade que late ódio a cada dia.


Nesta terça, o rosto de Moscovis será projetado, em tela grande, na França, na abertura do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, no elenco de “Querido Mundo”, de Miguel Falabella e Hsu Chien Hsin. A produção, em P&B, nasce da peça homônima do eterno caco Antibes sobre dois fracassados (vividos por Eduardo e Malu Galli) que se encontram (e se apaixonam) durante um réveillon, nos escombros de um prédio.


Neste fim de semana, o Festival de Curitiba mete um golaço na trave do Guairão, o Maracanã dos teatros brasileiros, ao receber a peça “Na Marca Do Pênalti”, um monólogo confessional egresso de SP, com Walter Casagrande Júnior. O ídolo do Corinthians e da seleção brasileira, que depois seguiu carreira como um dos comentaristas de futebol mais lúcidos e politicamente esclarecidos do país, rasga seu coração em cena. Pela primeira vez num palco, sob a direção de Fernando Philbert, com quem construiu a dramaturgia, Casagrande conta sua história.

Na Sexta-Feira da Paixão, a coqueluche do Festival de Curitiba foi um óvni teatral que mais parece um desenho animado vivo chamado “Jonathan”, ovacionado ao fim da encenação. Exercício decolonial, a peça se pavimenta sobre a biografia de uma centenária tartaruga, considerada o ser vivo mais antigo vivo na Terra. Paralelamente ao festejo do quelônio, vemos o processo de amadurecimento de um jovem sonhador de seu entorno, às voltas com todas as asperezas de sobreviver em um mundo que o quer submisso. Rafael Souza-Ribeiro, o Rafuda, numa atuação em estado de graça, é o astro em foco, sob a direção coruscante de Dulce Penna. Seu personagem herda o legado de zelar por um animal que é o ícone maior da longínqua ilhota de Santa Helena, entre a África e as Américas, onde estampa camisetas, bonés e até moedas de 5 centavos. De frente para a criatura, o protagonista descobre que sua missão envolve uma disputa pela memória... e pelo futuro, confrontando legados do colonialismo. O tal testudino (termo usado para animais de carapaça) é um signo de resiliência, que come tomates sem semente, demonstrando sempre um sorriso. A figura vivida por Rafuda deveria sorrir também, na dinâmica do “servo feliz” do Capitalismo. No entanto, ele sonha... ele ama. Amar e sonhar são verbos que desafiam algoritmos de controle.

Ainda na sexta, brilhou ainda na cidade “A Boca Que Tudo Come Tem Fome (Do Cárcere às Ruas)”, da Companhia de Teatro Heliópolis. O espetáculo usa espelho d´água e elementos da cultura afro-brasileira para retratar a luta de quem tenta reconstruir a vida após a prisão.


O Festival de Curitiba segue até o dia 12 de abril.