Correio da Manhã
Artes

Corpus Christi e o cavalo de São Jorge

Corpus Christi e o cavalo de São Jorge

Há uma injustiça histórica que precisa ser reparada. No Rio de Janeiro dos séculos XVIII e XIX, quando Corpus Christi era a maior festa pública da cidade e a procissão do Corpo de Deus transformava as ruas do Centro num grande teatro a céu aberto, havia um personagem indispensável que acabou esquecido pelos livros: o cavalo de São Jorge. O santo ganhou igrejas, velas, feriado, samba, devoção popular e milhões de fiéis. O cavalo ganhou o silêncio dos arquivos. O que é curioso. Porque, se formos rigorosos, era ele quem corria os maiores riscos.

A tradição vinha de Portugal. Desde o século XIV, São Jorge, padroeiro do reino português, abria a procissão de Corpus Christi montado a cavalo. Quando a Corte portuguesa se instalou no Rio de Janeiro, em 1808, trouxe consigo o costume. E foi assim que um animal que provavelmente só queria pastar em paz acabou recrutado para uma das cerimônias mais importantes da cidade.

Imagino que nunca lhe tenham perguntado se desejava participar. Em algum momento, um funcionário sem-noção da Coroa deve ter apontado para o cavalo mais vistoso disponível e decretado:

— É esse.

Pronto. De uma hora para outra, o animal passava a carregar nas costas um santo de madeira vestido com tecidos luxuosos, adornado com ouro, pedras preciosas e todas as honras que a monarquia portuguesa julgava necessárias para impressionar seus súditos.

Hoje chamaríamos isso de ambiente hostil de trabalho. Na época, chamavam de solenidade religiosa.

O cortejo saía pelas ruas estreitas do Centro do Rio, cercado por milhares de pessoas. Havia tropas perfiladas, irmandades religiosas, nobres, funcionários da Corte, músicos, tambores, sinos e foguetes.

Muitos foguetes. O que nos leva a uma pergunta que aparentemente ninguém fez na época: quem teve a ideia de colocar um cavalo no meio disso tudo? Os relatos dos cronistas sugerem que o plano nem sempre funcionava. Assustado pelo barulho, o animal empinava, desviava, acelerava ou simplesmente tentava convencer seus organizadores de que aquela era uma péssima ideia. Não raro, a imagem de São Jorge balançava perigosamente sobre a sela. Em algumas ocasiões, o santo acabava no chão.

É uma cena que os pintores da época tiveram o bom gosto de não eternizar. Imaginem o constrangimento. De um lado, autoridades tentando preservar a majestade da cerimônia. Do outro, um cavalo em pleno exercício do direito de discordar.

Os soldados corriam para conter o animal, recolher pedaços da ornamentação e restaurar a dignidade da procissão antes que a situação piorasse. O que provavelmente significava que a situação já havia piorado.

Talvez seja por isso que gosto tanto dessa história. Ela nos lembra que, por mais grandiosos que sejam os planos humanos, sempre existe a possibilidade de um cavalo estragar tudo. A monarquia podia organizar o desfile. A Igreja podia preparar a liturgia. Os nobres podiam vestir seus melhores trajes.

Mas bastava um foguete estourar mais perto do que devia para que toda a pompa do Império passasse a depender do humor de um quadrúpede assustado.

Com o tempo, a tradição foi perdendo espaço e vetaram o bicho da procissão. Não sabemos o que ele achou da decisão. Mas é difícil acreditar que tenha protestado. Na verdade, gosto de imaginar que foi o único participante verdadeiramente satisfeito com o fim da tradição.

Enquanto padres discutiam, autoridades deliberavam e cronistas registravam a mudança, ele talvez estivesse em algum estábulo do Rio mastigando tranquilamente sua ração e pensando:

— Até que enfim.

Ou talvez exista, em algum canto da eternidade, um céu reservado aos animais que prestaram relevantes serviços à História sem jamais receber o devido reconhecimento. Se existir, o cavalo de São Jorge certamente está lá. A aposentadoria foi merecida. Porque derrotar dragões é uma coisa. Atravessar o Centro do Rio em dia de Corpus Christi era outra bem diferente.