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O que é ser um ser humano?

Por PAULA MARTINEZ MELLO jornalista e secretária executiva do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher do Rio de Janeiro - CEDIM

'O Nome do Rato' também provoca um imenso incômodo. Não é um olhar distante sobre pessoas em situação de rua. É uma peça sobre nós, sobre a maneira como olhamos para quem está na rua

O impacto de "O Nome do Rato", dirigida por Ricardo Santos e Deisi Margarida, é de avassalar a alma... além de embatucar ideias. A peça traz Ricardo também em cena, conduzindo pelas vias da graça e da glória um monólogo em uma atuação precisa e emocionada.

Saí do Teatro Glauce Rocha, no Centro do Rio de Janeiro, com um misto de surpresa (diante da potência da encenação), de orgulho (por conhecer um artista tão profundamente envolvido com causas verdadeiramente humanas) e, confesso, de horror diante da capacidade de barbárie de alguns — ou de muitos.

É a barbárie dos que carregam a aparência de seres humanos, mas que, diante da dor do outro, parecem ter perdido a capacidade de reconhecer a própria humanidade.

A proposta dramatúrgica, de Carolina Lavigne e do onipresente Ricardo me lembrou muito "Os Olhos dos Pobres", de Charles Baudelaire. Nessa poesia em prosa, a noite de um casal é marcada pela presença de pessoas em mendicância: enquanto o homem se sensibiliza, a mulher reage com incômodo e rejeição, e essa falta de empatia acaba estragando a noite.

"O Nome do Rato" também provoca um imenso incômodo. Não é um olhar distante sobre pessoas em situação de rua. É uma peça sobre nós, sobre a maneira como olhamos para quem está na rua. Sobre como passamos por essas pessoas todos os dias sem realmente enxergá-las. E sobre como é fácil transformar uma vida em número, estatística, problema urbano ou questão de segurança.

O teatro documental se mistura ao teatro de objetos, às histórias pessoais do ator, aos relatos reais, aos dados e às experiências de quem conhece essa realidade. Objetos ganham novos significados. Dor vira prosopopeia.

Na trama, Marcel, o pedreiro, é representado por uma marmita e sua amada por um elegante sapato de saltinho, que nas mãos do titereiro em cena, contam uma das histórias que compõem o espetáculo. A cadeira, que me pareceu uma referência ao lendário diretor Aderbal Freire-Filho, também ganha novos sentidos ao longo da peça. Em um momento, por exemplo, vira uma coberta para aquecer o jovem Jordhan, expulso de casa pelo preconceito e pela intolerância da própria família.

O espetáculo segue propondo um questionamento que vai ficando cada vez mais pesado sobre cada um de nós: O que é ser um ser humano?

A pergunta faz parte da própria experiência de Ricardo que, durante uma performance proposta pelo artista argentino Fernando Rubio, passou cinco dias dentro de uma casa cenográfica, sendo observado pelas pessoas e interagindo com elas. Foi nesse processo que alguém lhe fez essa pergunta, aparentemente simples, mas que, depois de assistir a "O Nome do Rato", deixa de ser, pois somos levados a enxergar situações em que a humanidade parece desaparecer justamente daqueles que, socialmente, deveriam ser exemplos de "cidadãos de bem".

As histórias se sucedem na atuação de um Ricardo que domina a cena: amor, sonhos e realizações se misturam a situações de abandono e preconceito, revelando como a pobreza pode significar humilhação e exclusão. E então, um urro vindo das profundezas da dor traz Léo, que se materializa diante de nós. Uma das pessoas cujas histórias atravessam o espetáculo, Léo já viveu em situação de rua mas, quando sobe ao palco, deixa de ser personagem ou estatística. É Léo, contando a própria história.

É um momento de enorme força. Ele, ali, presente, vivo, de pé, cabeça erguida, digno, diante de uma plateia obrigada a olhar para além dos estigmas.

E é aí que o espetáculo ganha ainda mais força: provoca encontro, escuta e reflexão.

Os números são importantes, necessários, mas nenhuma estatística consegue olhar nos olhos. Léo consegue.

As pessoas em situação de rua sofrem com a violência, a falta de higiene, a vergonha, a fome... também sofrem demais de sede, você já havia pensado nisso? Nem eu...

Por isso que "O Nome do Rato" é tão difícil de esquecer. Porque nos mostra - de forma inequívoca - que, por trás de cada pessoa que vemos na rua, existe uma história. Um nome. Afetos. Perdas. Sonhos. Medos. Possibilidades. Tudo igualzinho à nós mesmos.

Ser realmente um ser humano talvez seja, antes de tudo, reconhecer humanidade no outro — mesmo quando ele perdeu quase tudo, mesmo quando está invisível aos olhos da sociedade, mesmo quando já não sabemos ou não queremos saber sua história.

Essa é uma das maiores potências de "O Nome do Rato": fazer-nos olhar para aquilo que aprendemos a não ver.

Ricardo Santos é ator, diretor, dramaturgo e professor, com mais de 30 anos de trajetória dedicada ao teatro e às questões humanas e sociais. Em 2019, foi indicado ao Prêmio Shell de Teatro na categoria Direção pelo espetáculo "O Rinoceronte", de Eugène Ionesco.

"O Nome do Rato" foi convidado para a 12ª edição do Festival Midrash de Teatro, realizado anualmente no Rio de Janeiro e reconhecido por reunir diferentes linguagens, estéticas e visões de mundo.