Tenho 52 anos na cara, eu sei. Mas confesso: até hoje eu adoro ler um gibi. Zé Carioca e Cebolinha disputam, palmo a palmo, o primeiro lugar no ranking do meu coração. Afinal, são dois malandros, cada um a seu estilo.
Em meio a tanto livro e tanta coisa importante que eu preciso ler, profissional e pessoalmente, sobra pouco tempo para matar essa saudade da infância. Mas de vez em quando eu arrumo um tempinho. E foi assim que, dia desses, desci para comprar um gibi do meu malandro predileto, o Zé Carioca.
Mas a missão virou expedição. Entrei na primeira banca: nada. Na segunda: nada. Na terceira, outra porta fechada na cara. Só na quarta encontrei a revista. Quatro bancas, uma hora de caminhada pra, enfim, ter o gibi na mão. Vitória com cara de prêmio.
E aí veio a reflexão. Tá cada vez mais difícil encontrar revista numa banca de… REVISTA!
Você encontra de tudo: doce, bala, chocolate, cigarro, charuto, e tem banca que vende até remédio. Jornal e revista de verdade, daqueles para ler com calma, viraram artigo raro. A resposta não é difícil de imaginar. Nesse mundo do delivery e da tela do celular, tudo chega na nossa frente sem a gente sair de casa. Ninguém mais compra jornal ou revista. Lê-se na tela, e pronto.
Talvez tenha ficado economicamente inviável manter uma banca nos moldes de antigamente, e os donos precisaram se reinventar, cada um do seu jeito. No fim das contas, é uma tradição que vai se esvaindo, aos pouquinhos, do cenário carioca.
Quem viveu sabe. As bancas antigas exibiam revistas e jornais de forma exagerada, e sempre havia uma pequena multidão nas laterais, espiando as manchetes. No dia seguinte a um grande jogo, então, nem se fala. Me lembro bem quando era moleque, de ir para o Anglo-Americano pegar o primeiro tempo às 7h20 da manhã, mas antes dava uma paradinha na banca para comprar o Jornal dos Sports pra saber as notícias do meu Flamengo.
Às vezes, perdia até a hora batendo papo com o jornaleiro, que invariavelmente acabava virando um amigo. Isso foi até uns 35 anos. Historicamente, não faz tanto tempo assim.
A banca carioca tem raízes antigas, cheias de imigrantes, sobretudo italianos, que tocavam bancas no centro da cidade, principalmente onde hoje fica a Avenida Rio Branco. Dizem até que o próprio nome, "banca", vem de um desses italianos, e eu adoro essa versão: Carmine Labanca, o italiano que inventou o primeiro ponto fixo de venda de jornais e revistas na cidade, em 1860.
E a regularização oficial das bancas pela prefeitura já tem quase um século. É de 1928. Ou seja, a banca faz parte da vida, do ambiente e da paisagem do Rio. Tanto que é patrimônio cultural e imaterial do estado.
Será que o município deveria incentivar que essa tradição se mantivesse? Ou a gente bota a cabeça no travesseiro, relaxa e aceita que algumas coisas não voltam mais?
Assim funciona a história, assim funciona a vida. As coisas vêm e vão. Alguns abnegados fazem força para manter viva uma tradição, mas tem hora que não dá.
Para quem não viveu, não há referência. Para quem viveu, fica uma saudade danada. E eu me pergunto: até quando eu vou poder ler o meu gibi do Zé Carioca?
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