Correio da Manhã
SÓ CARIOQUICES

SÓ CARIOQUICES: Começa o maior festival de músicas do planeta em ritmo de samba

SÓ CARIOQUICES: Começa o maior festival de músicas do planeta em ritmo de samba
Imagem gerada com o GPT Image 2 Crédito: Imagem gerada com o GPT Image 2

Acontece agora, enquanto você lê, no Rio de Janeiro, o maior festival de música do mundo. E ninguém o chama assim.

É a disputa dos sambas-enredo nas quadras do Rio. Mais de uma dezena de escolas no Grupo Especial, cada uma parindo dez, doze, quinze sambas ao mesmo tempo, por dois meses de suor e madrugada. Faça a conta e assuste-se: são mais de cem canções nascidas do nada, cantadas até a voz rachar, para que apenas uma sobreviva em cada escola. As outras morrem ao amanhecer, sem lápide e sem choro. É o festival mais cruel e mais generoso que eu conheço.

Nenhum outro canto do mundo desperdiça tanta beleza com tanta naturalidade. O compositor trabalha o dia inteiro e, à noite, vai à quadra para defender o seu samba como quem defende um filho. Sabe que às vezes não há chance, falta dinheiro. Mas vai assim mesmo - porque canta-se para pertencer. Para que, no dia do desfile, a escola inteira leve na boca uma frase que nasceu na sua mente.

É coisa muito nossa, muito carioca: a quadra que vira terreiro, a parceria que vira família, o refrão que aprende a andar sozinho pela cidade - no ônibus, no bar, na ladeira do morro - antes mesmo de existir fantasia que o vista.

E nesta quinta-feira o samba faz uma dessas pausas em que a história prende a respiração. A Unidos de Vila Isabel recebe seus compositores para o enredo de 2027, "Torto Arado", tirado do romance de Itamar Vieira Junior. Rotina, dirão os distraídos. Mas entre os poetas que vão submeter suas obras haverá um que se apresenta pela última vez como concorrente: Martinho da Vila.

São sessenta anos de Vila. Chegou garoto, em 1966, e no carnaval seguinte já assinava o samba da escola - "Carnaval de Ilusões". Ficou. E, ficando, reinventou o modo de se fazer samba-enredo, meio como quem afina um violão torto e descobre que o desafinado era o mundo, não ele. Foi dele o enredo que deu à Vila o seu primeiro título, em 1988, quando o país fingia festejar cem anos de uma abolição que nunca terminou de acontecer: "Kizomba, a Festa da Raça". A escola subiu a avenida cantando a África e a liberdade, e o hino atravessou quatro décadas sem uma ruga.

Agora, aos 88, ele se despede da disputa ao lado de André Diniz e Evandro Bocão, os parceiros das últimas caminhadas. Começou com um "Carnaval de Ilusões". Termina com um "Torto Arado". Entre uma metáfora e outra, sessenta anos - como se a vida tivesse caprichado na rima. Não há tristeza nisso. Há um homem que entrega a sua poesia de pé, cantando, do jeito que sempre sonhou sair.

E enquanto ele se despede, o resto do Rio compõe. A Unidos da Tijuca apresentou nesta semana os seus sambas para "A Cabeça do Santo". A Portela abriu a disputa para as cartas de amor a Monarco, o velho guardião que se calou em 2021: "Ao mestre, com carinho". Repare na cena: a avenida virou estante, a literatura virou verso cantado, e o samba foi de novo buscar grandeza no único lugar onde sempre a encontrou - na vida dos que quase ninguém vê.

Hoje, quando Martinho entregar o seu samba à direção da Vila Isabel, será bom estar por perto. Não pela despedida. Mas pela sorte rara de assistir, mais uma vez, ao instante exato em que um homem e uma cidade inventam, juntos, uma canção.