Vinicius Lummertz

Para governar é preciso de cultura?

Para governar é preciso de cultura?
.Na era da inteligência artificial, informação será abundante Crédito: Adobe Stock

Poucas palavras são tão mal compreendidas na vida pública quanto cultura. Costumamos associá-la às artes, à literatura, aos museus, ao patrimônio. Tudo isso é cultura, mas fica longe de esgotar seu significado. Cultura é também repertório: conhecimentos, experiências, referências e valores que ampliam nossa capacidade de compreender o mundo, estabelecer relações, formular perguntas melhores e encontrar soluções para problemas complexos.

Há mais de dois mil anos, Confúcio colocou educação, cultivo pessoal e qualidade dos dirigentes no centro da ordem pública, e isso guia a China de hoje; Aristóteles chamou de phronesis a sabedoria prática necessária para deliberar sobre aquilo que não admite respostas automáticas, e isso guiou o Ocidente. O mundo mudou, os problemas ganharam escala, mas a questão permanece: que repertório têm aqueles a quem entregamos decisões complexas?

Na era da informação, essa pergunta tornou-se vital. Informação é composta de dados; conhecimento resulta do processamento desses dados pelo repertório humano, uma espécie de software que vamos ampliando pela educação, cultura, experiência e contato com o diferente. Um repertório amplo permite relacionar fatos, perceber nuances e imaginar alternativas. Um repertório estreito pode receber uma quantidade infinita de dados e continuar produzindo respostas limitadas.

Há nisso um paradoxo contemporâneo. A mesma tecnologia que democratizou o acesso à informação criou filtros cada vez mais poderosos. Algoritmos, interesses políticos e econômicos, formadores de opinião, meios de comunicação e nossas próprias preferências selecionam o que vemos. Formam-se bolhas nas quais recebemos mais informação, mas não necessariamente mais diversidade. Quando o repertório não se amplia, o filtro derrota a vantagem informacional.

É aí que cultura e política se encontram. Governar o Brasil no caminho que sonhamos significa lidar simultaneamente com educação, pobreza, produtividade, infraestrutura, segurança, tecnologia, meio ambiente, relações internacionais e desigualdades regionais, num mundo em transformação acelerada. Nenhum desses problemas pertence a uma única disciplina. Todos exigem formação, conhecimento, experiência, inovação, liberdade intelectual e a maestria de combinar saberes.

Um governo nunca é o governo de um só. Uma das melhores medidas da qualidade de um governante também se reflete na qualidade das pessoas que consegue atrair. O grande líder não precisa saber mais do que todos; precisa ter repertório para reconhecer excelência, segurança para cercar-se de quem sabe mais do que ele em diferentes áreas e capacidade de transformar talentos individuais em inteligência coletiva orientada por um projeto.

Aprendi isso pela experiência. Convivi e trabalhei com pensadores como Domenico De Masi e Ignacy Sachs e participei dos governos Fernando Henrique Cardoso, Luiz Henrique da Silveira, em Santa Catarina, Michel Temer e João Doria. Eram circunstâncias e personalidades muito diferentes, mas pude observar um traço comum desses governos que aumentaram suas capacidades de realização por terem atraído pessoas preparadas e permitido o confronto de ideias e a organização de competências distintas em torno de objetivos maiores.

Fernando Henrique trouxe para o governo o repertório do intelectual; Ruth Cardoso mostrou como conhecimento e inovação social podem transformar-se em políticas públicas. Temer reuniu, em meio a uma grave crise, uma equipe experiente para enfrentar uma agenda econômica e institucional igualmente grave. Doria buscou especialistas e gestores reconhecidos em diferentes áreas. Em Santa Catarina, Luiz Henrique compreendia que desenvolvimento, educação e cultura faziam parte da mesma construção; a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville, permanece como símbolo de uma sociedade capaz de buscar excelência no mundo para produzir excelência aqui.
Darcy Ribeiro compreendeu que educação e cultura pertencem ao projeto de construção de uma nação. De Masi percebeu que conhecimento e criatividade se tornariam matérias-primas fundamentais da sociedade pós-industrial. Sachs ensinava a compreender o desenvolvimento em suas dimensões econômica, social e ambiental. A lição que os aproxima é simples: problemas complexos não se resolvem reduzindo a realidade, mas ampliando o repertório com que a interpretamos.

Países que deram grandes saltos compreenderam isso. Singapura fez da formação de seus quadros uma estratégia nacional. China e Índia investiram maciçamente em educação, ciência, engenharia e capacidade administrativa. As democracias europeias construíram instituições e tradições de serviço público que atravessam governos. Sistemas políticos diferentes chegaram, por caminhos distintos, a uma mesma evidência: sociedades complexas exigem governos preparados para a complexidade.

O Brasil, pela dimensão de seus problemas e ainda mais pela dimensão de suas possibilidades, precisa elevar esse padrão. Temos recursos naturais, diversidade cultural, empresários, cientistas, universidades, artistas e profissionais capazes de competir no mundo. O desafio é transformar essa inteligência dispersa em equipes e projetos de país.
Para isso, a democracia também precisa aprender a distinguir. Bons governos e maus governos, equipes preparadas e improvisadas, conhecimento e amadorismo não são equivalentes. Quando os filtros de interesse e as bolhas tornam essas diferenças invisíveis, a sociedade pode ter liberdade para escolher e perder a capacidade de escolher bem.

Por isso, a política deve ser educativa, não deseducativa. Formadores de opinião, imprensa, universidades, empresários, intelectuais e homens públicos têm a responsabilidade de ampliar, e não estreitar, o repertório da sociedade. Os cidadãos, por sua vez, precisam querer aprender a distinguir.

Na era da inteligência artificial, informação será abundante; discernimento no Brasil continuará raro. Para um país do tamanho do Brasil, não basta perguntar quem governará. É preciso perguntar com quem governará, que inteligência será capaz de reunir e que projeto de país conseguirá construir. A democracia nos dá o direito de escolher. Cultura, repertório, formação, experiência e conhecimento nos dão algo igualmente precioso: a capacidade de escolher melhor.

*Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.