A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi quem melhor traduziu o resultado da sessão da Corte desta terça-feira, 15, que discutiu o envolvimento de alguns de seus membros com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Além de ter dito que o STF "provocou um mal-estar cívico em todos os cidadãos e cidadãs" devido ao bate-boca público entre seus integrantes, Cármen Lúcia se mostrou "profundamente envergonhada". Ela pediu "desculpas ao povo brasileiro que talvez tenha esperado de nós algo diferente".
A ministra lembrou que o país está a 19 dias da eleição do futuro presidente da República e de governadores, senadores e deputados federais. "O povo brasileiro deveria estar concentrado na eleição geral e em decidir seu destino, mas as discussões sobre o Supremo passaram a dominar os lugares que frequentava e os telejornais", reclamou.
Tudo porque nada foi decidido na sessão desta terça-feira - marcada para votar se seria ou não aberta investigação sobre o envolvimento do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro. Terminou sem decisão.
Oficialmente foram registrados dois votos a favor do início da investigação (Edson Fachin e André Mendonça) com três contrários (Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin). Flávio Dino pediu vista e deixou claro que seu voto será contra, mas Luiz Fux e Cármen Lúcia anteciparam formalmente o apoio à investigação. Ficou uma placar final de quatro a quatro, o que deverá fazer com que Fachin, como presidente da Corte, vote novamente para desempatar. Nunes Marques e Dias Toffoli não votaram.
O grupo de Alexandre de Moraes foi contrário ao início da votação. Propôs que, junto, fosse discutida a atuação de André Mendonça como relator. Segundo Moraes, o ministro o perseguiu e promoveu vazamentos seletivos. Os dois bateram boca. Mas foi contra Gilmar Mendes que André Mendonça mais se exaltou. Fux também teve momentos de exaltação contra Flávio Dino e Gilmar Mendes.
Gilmar acusou Mendonça de "um inequívoco viés político-eleitoral na forma como os autos foram conduzidos nesse inquérito. Escolha de data, 7 de setembro, envolvendo essa Corte em campanha eleitoral. Isso não se faz. [...] Evidente que se trata de um 'pixuleco', de um boneco eleitoral. É disso que nós estamos falando". Mendonça xingou o ministro aos gritos de "leviano, leviano".
Para o governo, o resultado não foi bom. O Palácio do Planalto torcia para que os ânimo se acalmassem. Já os bolsonaristas avaliam que a crise do STF os beneficia, pois o clima ruim tem atingido a popularidade do presidente da República, segundo as pesquisas de intenção de voto.
Os bate-bocas eram esperados, na medida em que os ministros se prepararam para uma guerra na sessão. Mas também havia especulações sobre a possibilidade de um acordão e até de que acabassem não conseguindo chegar a lugar nenhum.
Intitulada "Pode acontecer tudo no STF, inclusive nada", esta coluna ontem terminou com a seguinte avaliação: "Daí porque pode ocorrer tudo na sessão desta terça-feira. Inclusive nada. Ou um pedido de vista."
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