Correio da Manhã
Tales Faria

Flávio e Milei acenaram com beligerância institucional

Histrionismo de aliados estrangeiros de Flávio fortalece o mote de campanha de Lula em defesa da soberania do Brasil e contra interferências alheias ao país

Flávio e Milei acenaram com beligerância institucional
Javier Milei e Flávio Bolsonario dançam durante convenção do PL Crédito: reprodução vídeo

Ex-presidente da Câmara, Marco Maciel era um cacique da direita que, junto com José Sarney, levou metade da antiga Arena (depois PFL) a apoiar a redemocratização do país. Acabou se tornando vice-presidente do "príncipe dos sociólogos" brasileiros, Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Maciel costumava aparecer com algumas tiradas políticas bem-humoradas, como quando citava obviedades do Conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queirós. A mais repetida delas era: "As consequências vêm depois."

Se vivo estivesse, ele certamente estaria usando novamente essa fala do Conselheiro Acácio para comentar a convenção do PL, no último sábado, 25: suas consequências estão aparecendo mais fortemente agora, depois.

O mais midiático evento da convenção, que mais mobilizará a imprensa nos próximos dias, foi a participação do presidente Argentino, Javier Milei. Ao lado do candidato ao comando do Palácio do Planalto, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Milei trouxe ao país dancinhas e xingamentos a autoridades. Especialmente contra o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), chamado de "lixo careca".

O mau comportamento do presidente argentino causou uma crise diplomática e um certo mal-estar no Mercosul devido à fricção entre os dois maiores países do bloco. O histrionismo dos aliados estrangeiros de Flávio não ajuda em nada a sua campanha. Só fortalece o mote do adversário, Lula, em defesa da soberania do Brasil, contra interferências alheias ao país, seja do argentino Milei, ou do norte-americano Donald Trump.

Mas o pior eco da convenção, o mais perigoso para a campanha de Flávio, foi sua insistência em anunciar que, condenado a 27 anos de prisão pelo STF, seu pai, Jair Bolsonaro, subirá a rampa com ele, caso seja eleito.

Juntando essa afirmação com os xingamentos de Milei e, ainda, o gesto de desobediência civil que foi o vídeo com representação de seu pai em Inteligência Artificial, Flávio acenou na convenção com a manutenção do estado de beligerância institucional contra a Corte Suprema do país.

Lula não agrada à chamada Faria Lima, mas Flávio Bolsonaro tem conseguido a proeza de desagradar muito mais.

Corre solta no mercado a avaliação de que investidores estrangeiros enxergam a reeleição do petista no Brasil como um governo conhecido, com uma política econômica que consideram ruim, mas que não leva o país à ruptura.

Entre os investidores locais, há, é verdade, um certo niilismo: aqueles que acreditam que a situação fiscal já se deteriorou demais e que ninguém resolverá agora. O país estaria caminhando para uma grande crise entre 2027 e 2028 – que talvez só se resolva após 2030.

Há também os otimistas, que apostam que Lula repetirá o comportamento do primeiro mandato: promoverá algum ajuste fiscal depois da eleição, mesmo que não seja estrutural.

Mas a análise que o mercado mais teme é a da insegurança, de rupturas institucionais acenadas na convenção do PL, com enfrentamentos seguidos do próximo ocupante do Palácio do Planalto contra os outros poderes da República.

Esse foi o recado passado por Milei e Flávio Bolsonaro e que soou como um tiro no pé da campanha bolsonarista. E que promete ecoar por algum tempo.