Sérgio Nery

Atrio amplia atuação e mira novo ciclo hoteleiro

Companhia integra desenvolvimento imobiliário, marcas e gestão e projeta receita acima de R$ 1,3 bilhão em 2026

Atrio amplia atuação e mira novo ciclo hoteleiro
Gabriel Fumagalli, Beto Caputo e Paulo Mélega apresentam o novo posicionamento da Atrio Crédito: Divulgação

A Atrio iniciou uma nova etapa de sua trajetória ao reposicionar a atuação para além da administração de hotéis. Presente em 18 estados, com 108 propriedades e 14,3 mil apartamentos administrados, a companhia passa a se apresentar ao mercado como uma empresa de hospitalidade capaz de acompanhar toda a trajetória de um empreendimento, desde a concepção imobiliária até a operação.

O novo posicionamento está estruturado em três pilares: desenvolvimento imobiliário, que envolve a estruturação e a adequação dos ativos; marcas, com a escolha ou criação da bandeira mais apropriada para cada imóvel e mercado; e gestão, concentrada no desempenho do empreendimento e no retorno ao investidor.

A estratégia foi apresentada nesta quarta-feira (2), em São Paulo, acompanhada de uma nova identidade e da assinatura “Hospitalidade que performa”. A Atrio estima encerrar 2026 com receita dos empreendimentos de seu portfólio acima de R$ 1,3 bilhão. Segundo projeções apresentadas pela companhia, a meta é superar 150 hotéis em operação e alcançar R$ 100 milhões de EBITDA até 2029.

De acordo com o CEO e cofundador Beto Caputo, a mudança organiza competências que já faziam parte dos 38 anos de história da companhia, mas que nem sempre eram percebidas pelo mercado.

“Conseguimos criar um ecossistema de hospitalidade que vai muito além apenas da gestão”, afirmou. Segundo ele, a Atrio volta agora a dar maior ênfase à participação no desenvolvimento imobiliário dos projetos.

A companhia identificou como uma das fragilidades do setor a contratação separada do ativo imobiliário, da bandeira e da operação. Para integrar essas etapas, desenvolveu o Método Atrio, estrutura própria dividida em dez frentes de trabalho voltadas à geração de receita, eficiência e evolução contínua dos empreendimentos.

O reposicionamento não representa um afastamento da Accor. A parceria permanece como um dos alicerces da companhia e inclui marcas como ibis, Mercure, Novotel e Grand Mercure. Paralelamente, a Atrio amplia o espaço de suas próprias soluções.

A Ara, bandeira lifestyle direcionada principalmente à conversão de hotéis existentes, já possui dois ativos em operação e prevê uma terceira abertura até o fim do ano. A Xtay passa a integrar o portfólio no segmento de smart hotéis, enquanto a Livá concentra a atuação em multipropriedade e residências com serviços.

A ideia, segundo o diretor de Marketing, Gabriel Fumagalli, é oferecer um ecossistema capaz de indicar a marca mais adequada às características de cada imóvel e de seu respectivo mercado.

 

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Nova identidade visual traduz a ampliação da atuação da Atrio | Foto: Divulgação

Oferta controlada, apesar dos investimentos

O novo posicionamento coincide com a retomada do interesse de investidores institucionais pela hotelaria. Questionado pelo Correio da Manhã sobre o risco de repetição do excesso de oferta registrado no ciclo da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, Caputo afastou a possibilidade de um desequilíbrio no curto e médio prazo.

Segundo o executivo, os juros elevados ainda desestimulam novos projetos e ajudam a manter controlada a construção de hotéis. Ao mesmo tempo, grandes instituições financeiras e fundos imobiliários começam a voltar suas atenções para os ativos do setor.

“Não prevejo um excesso de oferta que comprometa o setor no curto e médio prazo. A única ressalva é o crescimento das locações de curta temporada, tipo Airbnb, que impacta principalmente o segmento econômico”, afirmou.

Caputo lembrou que mercados inicialmente associados a uma oferta excessiva conseguiram absorver os novos leitos ao longo dos anos. Ele citou Belo Horizonte, onde incentivos municipais impulsionaram rapidamente a construção de hotéis, e a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que recebeu novos empreendimentos antes da Olimpíada.

“Passados 15 anos, o cenário é oposto: há escassez de leitos e as taxas de ocupação são elevadas”, disse, referindo-se à capital mineira. Para o CEO, o desempenho atual dessas regiões demonstra a capacidade do mercado de gerar e absorver novas demandas.

A evolução do portfólio também provocou mudanças nos critérios geográficos da Atrio. A empresa começou concentrada em hotéis de negócios localizados em cidades secundárias, mas agora prioriza grandes capitais capazes de combinar demanda corporativa e turismo de lazer.

O Rio de Janeiro está entre as cinco principais prioridades de expansão. Caputo considera que a cidade reúne demanda turística, atividade ligada ao setor de óleo e gás e presença governamental, além de ainda apresentar espaço para novos investimentos.

Em julho, a Atrio chegou à capital paulista com o Grand Mercure São Paulo Pinheiros, marcando sua entrada no principal mercado hoteleiro do país. No mesmo período, assumiu em Campo Grande um complexo com três bandeiras da Accor, na maior conversão já realizada pela companhia nesse formato. No Rio, ampliou a presença com o Ara Copacabana.

Restaurantes ganham protagonismo

A diversificação também passa pela área de alimentos e bebidas, que deixou de ser considerada apenas um serviço complementar dos hotéis. Atualmente, a Atrio administra mais de 80 restaurantes, e alimentos e bebidas representam quase 30% das receitas geradas nas operações.

Segundo o vice-presidente Paulo Mélega, 35 hotéis já trabalham com conceitos específicos de alimentação, que incluem diferentes propostas gastronômicas. O executivo informou que o ecossistema reúne 15 marcas hoteleiras e mais dez vinculadas a alimentos e bebidas.

“Alimentos e bebidas são um eixo estratégico para a Atrio na experiência dos hóspedes”, afirmou Mélega. Para o executivo, a área amplia a rentabilidade dos ativos e ajuda os hotéis a se relacionarem também com o público local, para além dos hóspedes.

Com a integração entre imóveis, marcas, operação, tecnologia e experiência, a Atrio busca se posicionar para um novo ciclo de investimentos no setor. A expansão, entretanto, será acompanhada pela análise da demanda e pela capacidade de cada empreendimento de gerar resultado — condição que a empresa coloca no centro de seu novo discurso ao mercado.