O futebol brasileiro perdeu nesta segunda-feira (18) não apenas um craque. Perdeu também um tipo de jogador que, infelizmente, parece cada vez mais raro. Geovani Silva, o eterno “Pequeno Príncipe”, jogava futebol com uma inteligência e uma leveza que o Brasil já produziu em abundância, mas que hoje surge quase como peça de coleção.
Em tempos em que o futebol privilegia intensidade física, força e ocupação de espaço, Geovani era a personificação de outra escola. A do camisa 8 cerebral. Do meio-campista que organizava o jogo com técnica refinada e compreensão rara do tempo da partida. Jogava mais com o cérebro do que com as pernas. Antevia jogadas. Pensava antes dos outros.
O meio-campista não precisava de explosão física para dominar uma partida. Bastavam alguns toques na bola para controlar o ritmo do jogo. Era um jogador elegante. Daqueles que davam a sensação de que o futebol podia ser jogado sem esforço aparente.
Até suas cobranças de pênalti carregavam essa assinatura técnica. Durante anos, criou-se no imaginário popular o mito de que Geovani jamais teria perdido uma cobrança na carreira. O registro histórico mostra que houve raríssimas exceções, o que não diminui a dimensão de um aproveitamento extraordinário. O simples fato de o mito ter sobrevivido por tanto tempo já ajuda a explicar o tamanho de sua qualidade.
No momento de maior tensão do futebol — quando um esporte coletivo se resume ao duelo entre goleiro e cobrador — ele normalmente fazia o mais difícil parecer simples. Deslocava o goleiro com precisão quase cirúrgica. Muitas vezes, o arqueiro “nem saía na foto”, como dizia a velha linguagem do futebol brasileiro.
Nascido em Vitória, ele iniciou a carreira ainda adolescente na Desportiva Ferroviária e se transformou em um dos maiores símbolos da história do esporte capixaba. Talvez o primeiro grande ídolo do futebol do Espírito Santo em dimensão nacional.
E foi no Vasco da Gama que o Brasil descobriu a dimensão daquele meio-campista raro. O clube carioca se tornou sua casa esportiva e afetiva. O jogador construiu uma relação profunda com a torcida vascaína, alimentada até os últimos anos de vida. Nas redes sociais, fazia questão de reafirmar constantemente seu amor pelo clube que o revelou.
No Vasco, virou ídolo em uma das gerações mais marcantes da história do clube, dividindo protagonismo com nomes como Roberto Dinamite e Romário. Conquistou títulos importantes, entre eles os Campeonatos Cariocas de 1982, 1987, 1988, 1992 e 1993.
Mas o craque não encantou apenas São Januário.
O mundo começou a perceber seu talento no Mundial Sub-20 de 1983, no México. Capitão e principal referência técnica daquela seleção brasileira, conduziu o Brasil ao primeiro título mundial da categoria. Foi artilheiro e eleito o craque do torneio, que contava com nomes como o holandês Marco Van Basten.
Anos depois, voltou a ser protagonista com a camisa da Seleção Brasileira nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Armando o jogo para Romário, ele foi um dos pilares da campanha que deu ao Brasil sua segunda medalha de prata no futebol e a primeira medalha olímpica do Espírito Santo. A ausência dele na final contra a então União Soviética, por suspensão após cartões amarelos, acabou sendo sentida profundamente por aquela equipe. Faltava justamente o cérebro do meio-campo brasileiro.
Curiosamente, um jogador desse tamanho jamais disputou uma Copa do Mundo pela seleção principal. E isso talvez permaneça como uma das injustiças mais difíceis de explicar do futebol brasileiro, especialmente em 1986 e 1990, quando vivia o auge da carreira.
Ainda assim, o camisa 8 fez parte do elenco campeão da Copa América de 1989, título histórico por encerrar um jejum de conquistas relevantes da Seleção desde a Copa do Mundo de 1970.
Sua ausência em Mundiais o aproxima de outros talentos brasileiros extremamente técnicos que também ficaram fora de Copas, como Djalminha e Alex. Cada um com suas características próprias, mas todos representantes de uma linhagem de jogadores que priorizavam toque de bola, inteligência e criatividade acima da imposição física. Talvez por isso despertem tanta nostalgia.
Nos últimos anos, Geovani travou outra batalha difícil: a luta contra uma grave doença. E a enfrentou com coragem e dignidade, da mesma maneira como encarava os grandes clássicos e jogos decisivos pelo Vasco.
O “Pequeno Príncipe” parte aos 62 anos deixando saudade em um futebol cada vez mais carente de jogadores capazes de pensar o jogo com delicadeza, inteligência e arte.
Como no clássico livro que eternizou seu apelido, Geovani parecia compreender algo que o futebol moderno muitas vezes esquece: o essencial nem sempre está na força. Às vezes, está justamente na sensibilidade de enxergar antes dos outros aquilo que poucos conseguem ver.