Somente as próximas pesquisas irão medir o impacto sobre o eleitorado do debate entre os candidatos à Presidência na noite de domingo (18) na Band. Duas pesquisas qualitativas às quais o Correio Político teve acesso, porém, parecem demonstrar que, ao final, nenhum dos dois, nem Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que disputa a reeleição, nem Flávio Bolsonaro (PL), seu adversário, ganharam muito. Se o alvo principal a ser conquistado neste segundo turno eram os eleitores indecisos, a agressividade da rinha produzida pela Band transformou o programa num debate para convertidos. Lula, em alguns momentos, falou para os seus. E Flávio da mesma forma. Mais afugentado possíveis novos eleitores do que aproximando, assustados com a falta de propostas que viram. Enfim, como resumiu o advogado e analista político Melillo Dinis, "uma noite para ser esquecida".
Debate da Band: uma noite "para ser esquecida"
O que são pesquisas qualitativas
Pesquisas qualitativas usam grupos menores de pessoas para medir a impressão deles sobre determinados programas e conteúdos. São diferentes das pesquisas quantitativas, que ouvem mais pessoas em todo o país de uma maneira que seja proporcional ao pensamento da totalidade. No caso, as pesquisas convidaram um grupo, que assistiu juntos ao debate formulando as suas impressões para que se chegasse a uma conclusão. O Correio Político teve acesso a duas: da Quaest e do grupo Locomotiva.
Quaest apontou ligeira vantagem para Flávio
A Quaest reuniu grupos de cem pessoas. E, no caso, apontou ligeira vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula. Assim avaliaram 82 de cem pessoas. E 79 de cem consideraram Lula melhor. A impressão final, no entanto, foi a de que ambos falaram somente para suas próprias bolhas. "A impressão predominante nas qualitativas foi a de um debate tenso, com pouco conteúdo programático e (...) ataques sucessivos. Os participantes não perceberam uma candidatura capaz de ampliar claramente sua coalizão", foi a conclusão.
Flávio mais seguro. Lula melhor sobre saúde
Na avaliação de quem participou da dinânica, Flávio pareceu "mais seguro". "Ao mesmo tempo, a segurança de Flávio não eliminou a crítica de que ele deixou perguntas sem resposta e evitou temas nos quais parecia menos preparado", anotou a pesquisa. Já o ponto positivo com relação a Lula foram suas respostas sobre saúde e a pandemia, levando Flávio a admitir que esse foi o ponto fraco do governo de seu pai.
"Moleque"
Já no caso do grupo Locomotiva, que faz pesquisas em favelas, a percepção dos grupos foi no sentido de que Lula venceu. O Locomotiva reuniu dez grupos nas capitais com mais eleitores. E Lula foi considerado o melhor nos dez grupos. O principal fator anotado foi o tom de deboche a arrogância de Flávio, considerado "um moleque".
Desrespeito
Segundo as qualitativas do Locomotiva, sobressaiu uma impressão de que Flávio Bolsonaro "desrespeitou o presidente da República e um idoso". A postura de Flávio, colocando-se atrás de Lula quase o tempo todo, gerou incômodo nos grupos. No caso da Quaest, o problema maior de Flávio foi a falta de respostas.
Conclusões da Quaest
"Flávio se apoiou em postura, clareza e domínio percebido de segurança e tecnologia. Lula preservou uma vantagem temática em saúde e conseguiu momentos de ataque (...), mas pagou o preço de respostas (...) confusas. Flávio (…) transmitiu segurança sem dissipar a impressão de que evitava responder a perguntas difíceis".
Sem conteúdo
"O saldo mais importante (…) é a combinação entre forte contraste de imagem e baixo contraste programático. Os participantes identificaram diferenças reais — saúde pública e privada, privatização, saidinha e recuperação de presos, endurecimento penal e prevenção —, mas sentiram falta de desenvolvimento e de respostas substantivas".
Duelo de rejeições
"O confronto ficou mais próximo de um duelo de rejeições do que de uma disputa sobre como enfrentar os problemas do país", conclui o relatório da Quaest. "Nenhum dos dois pareceu empolgar ou ampliar muito o próprio campo", considera. Numa eleição que já vinha calcificada, sem que os números muito se movam, é ruim para ambos.
Debates
Já há uma década, Melillo Dinis tem reforçado que os debates presidenciais já não produzem os mesmos efeitos e deveriam ter seu modelo rediscutido. A Band pensou que poderia resolver o engessamento de regras deixando os candidatos soltos. Talvez imaginasse que houvesse compostura. Infelizmente, não houve…
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