Qualquer que seja o resultado final deste segundo turno, ele marcará o início de um drama para o PT e para a esquerda: o que virá depois de Luiz Inácio Lula da Silva. Desde a primeira eleição presidencial após a ditadura militar, a esquerda foi mais e mais se rendendo a um projeto personalista, que chega agora, com a vitória ou derrota de Lula, ao seu último capítulo. E não há a essa altura um vislumbre sequer sobre para onde caminhará o PT e a esquerda a partir de então. Em 1989, quando Lula surpreendeu a todos ultrapassando Leonel Brizola, do PDT, e indo ao segundo turno com Fernando Collor, do PRN, claramente o eleitor brasileiro sinalizava um sentido de renovação. Que puniu especialmente Ulysses Guimarães, do MDB, um dos maiores artífices da redemocratização que se consagrava naquele momento. Ulysses teve, então, menos de 5% dos votos.
Lula e o fim de um projeto personalista
Ulysses era oito anos mais novo que Lula
Ulysses, o "Velhinho", como dizia a sua campanha, foi punido nas urnas naquela ocasião porque representaria algo ultrapassado diante desse sentimento do novo. Ulysses tinha, então, 73 anos. Era oito anos mais novo do que é agora Lula, que disputa o segundo turno com Flávio Bolsonaro aos 81 anos. Hoje, ninguém poderá dizer que Flávio Bolsonaro, aos 45 anos, representaria um sentido de renovação. No fundo, o seu voto não é dele. É de Jair Bolsonaro, que tem 71 anos. A atual eleição é velha.
Lula tinha 44 anos
Em 1989, Fernando Collor tinha 40 anos quando passou para o segundo turno. E Lula tinha 44 anos. Dois homens jovens foram as escolhas diante de outros nomes que o eleitor identificou como representações do passado que a democracia extinguia. Nomes identificados com a ditadura. Seja a favor dela, como Aureliano Chaves e Paulo Maluf, seja contra, como Ulysses ou Brizola. A partir de então, porém, o enorme carisma de Lula foi se consolidando como opção.
Alternativas foram demolidas
Lula e o PT representavam uma nova proposta de esquerda, a partir do que surgia de novo então na sociedade. Primeiro, derrotou os modelos antigos, de Leonel Brizola ou dos partidos comunistas. Depois, foi desviando o MDB e o PSDB de uma posição de centro-esquerda para um campo mais conservador. Lula negou palanque a Ulysses para apoiá-lo no segundo turno.
PSDB
Nos primeiros movimentos para a sucessão presidencial em 1994, o PT chegou a negociar uma aliança com o PSDB. O candidato à Presidência de Itamar Franco seria seu ministro da Previdência, Antonio Brito, do MDB. Veio o Plano Real. O PT ficou contra. E a estabilidade econômica guindou Fernando Henrique Cardoso como candidato.
Primeira polarização
Extinta a possibilidade de aliança, o PSDB uniu-se ao PFL, caminhando, então, para um governo mais de centro-direita com Fernando Henrique Cardoso à frente. Petistas e tucanos durante anos protagonizaram o primeiro momento de polarização brasileira, o primeiro FlaXFlu, ainda que bem mais civilizado.
Dilma
Sempre candidato desde 1989. Lula chega finalmente à Presidência em 2002. Antes, trata de esvaziar alternativas à esquerda que não passassem pelo seu controle, como Luiza Erundina. Cria uma alternativa que imaginava que controlaria, sua ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff. Lula imaginava voltar após os quatro anos de Dilma.
Eduardo Campos
Se esse era o acordo, Dilma não cumpriu. Foi candidata e reelegeu-se quatro anos depois. Na mesma eleição, que fez sucumbir num acidente aéreo alguém que se construía como alternativa à esquerda: o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, do PSB. Mais e mais, limitou-se Lula como a alternativa de esquerda.
Risco democrático
Com a vitória de Jair Bolsonaro em 2018 e todos os movimentos lidos como um ensaio de golpe contra a democracia, a esquerda foi se unindo em torno de Lula como alternativa. Partidos como o Psol e a Rede, que até então tinham seus próprios candidatos, uniram-se em torno do PT. As circunstâncias consolidaram o projeto personalista de Lula.
E agora?
Mesmo nomes mais ao centro, como Geraldo Alckmin e Simone Tebet, se agregaram a Lula. Se por um lado não havia dúvidas da capacidade política de Lula para conduzir os processos que o tornaram presidente por três vezes, por outro toda a situação inibiu completamente a construção de alternativas. A esquerda não tem quem suceda Lula.
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