Quando se elegeu deputado federal pela primeira vez, em 1998, Ricardo Berzoini tinha 38 anos. Segundo ele, na ocasião, a bancada do PT na Câmara era a mais jovem. "Agora, a grande maioria dos deputados petistas são mais idosos", comenta Berzoini, na continuação da conversa que teve com o Correio Político. Para o ex-ministro e ex-presidente do partido, esse é um dos sinais da constatação de que o PT, consiga ou não reeleger Luiz Inácio Lula da Silva, precisará passar por um grande processo de renovação. A começar pelo fato de que não terá mais Lula como sua referência principal e quase eterno candidato à Presidência. Se for eleito, Lula, pela atual legislação, não poderá disputar novo mandato. Ainda que pudesse, estaria em 2030 com 86 anos. Em 2034, terá 90 anos. "Lula está com boa saúde e muita disposição. Mas tudo indica que essa será sua última disputa eleitoral", comenta.
Berzoini: receita de rejuvenescimento do PT
Quem e como são os trabalhadores de hoje?
Assim, a escolha do novo rosto que passará a ser a principal referência do PT é o grande desafio. Será um partido menos personalista, a partir de então? Mas, para além dessa questão, Berzoini comenta que será necessário pensar um projeto partidário de longo prazo que compreenda as mudanças que aconteceram no país e que torna o Brasil bem diferente daquele que havia no final da década de 1970 e início da década de 1980 quando o PT foi criado, com representações da sociedade que mudaram.
Associações da criação mudaram
Quando foi criado, o PT surgiu da conjugação de um grupo de intelectuais de esquerda com setores da sociedade que emergiam. O principal deles, é claro, os trabalhadores organizados em sindicatos, como os metalúrgicos de Lula ou os bancários de Berzoini. A eles, se somou a igreja católica progressista, e o importante trabalho que fazia nas periferias das cidades a partir das comunidades eclesiais de base. E as organizações oriundas dos chamados "povos da floresta", os ambientalistas ligados a Chico Mendes e Marina Silva.
O Brasil de 2026 é bem diferente
Em 2026, o Brasil é bem diferente. Os sindicatos perderam a força que tinham. Os ditos modelos de "empreendedorismo" - entregas, motoristas de aplicativo, etc - crescem na sociedade. Os segmentos evangélicos cresceram especialmente nas periferias, e mesmo a Igreja Católica tornou-se mais conservadora. E a cadeia produtiva do agronegócio representa 25% do PIB brasileiro.
Trabalho formal
Berzoini reconhece a perda de força do movimento sindical. Mas relativiza as mudanças nos modelos de trabalho, ainda que a reforma trabalhista teha impactado os modelos tradicionais. "Mas o trabalho formal, com carteira assinada, no Brasil tem crescido", ele observa. "E alguns desses novos modelos são mudanças sobre o que já havia".
Mudanças
Os motoristas de aplicativo, por exemplo, diz Berzoini, avançaram sobre um modelo que já não era de trabalho formal e carteira assinada: os motoristas de táxi. Os entregadores deixaram de ser funcionários de um único restaurante ou lanchonete para trabalhar para grandes empresas de entregas. Tudo, porém, muda o conceito de trabalhador.
Perfil religioso
Outro desafio é o perfil religioso da população. E o projeto político de alguns setores do mundo evangélico. "Quando eu presidia o PT, vi o surgimento do Partido Republicano", relembra Berzoini. O partido era a legenda do vice de Lula nos primeiros governos, José Alencar. E nasceu como braço político da Igreja Universal do Reino de Deus.
Republicanos
Então aliado de Lula, o Partido Republicano virou o Republicanos de hoje, legenda do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, entre outros. "Inegável como esse projeto político cresceu e precisa hoje ser levado em consideração na sociedade", comenta Berzoini. "A nova realidade é essa", comenta o ex-presidente do PT.
Mudança
Embora alerte que a disputa política nestas eleições será difícil, voto a voto, Berzoini, como mostramos aqui na quinta-feira (24), confia na vitória de Lula. Então, a partir da constatação de que será seu último governo, abrindo obrigatoriamente a necessidade de renovação, ele acha que ficará criado o espaço para que o PT discuta sua renovação.
Caso perca
Caso perca, o que, evidentemente, Berzoni nem de longe deseja, tudo será bem mais difícil. Mas talvez ainda mais necessário. De qualquer modo, o eventual governo Flávio Bolsonaro (PL) precisará de contraponto, de oposição. E, então, não há muita dúvida de que força política se apresentará com maior capacidade para esse contraponto.
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