Ex-ministro da Previdência, do Trabalho, das Comunicações, da Secretaria-Geral de Governo. Ex-presidente do PT. Ex-deputado federal. Hoje um pouco afastado da rotina do partido e mais ainda da rotina do governo, Ricardo Berzoini tem várias credenciais para fazer alertas. Não foram poucas as campanhas eleitorais de que participou. É com esse currículo que ele avaliou o atual quadro eleitoral, na disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição, e seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). Berzoini projeta a possibilidade de agora Flávio Bolsonaro ter uma performance semelhante à que teve seu pai, Jair Bolsonaro, nas eleições de 2018. E em 2018 Jair Bolsonaro foi eleito presidente. Mas seu adversário na ocasião não era Lula, mas Fernando Haddad. "Ou seja, será como gosta de dizer aquele locutor de futebol: 'Haja coração!' Uma disputa voto a voto", disse ele.
Berzoini alerta PT: "Não sou pessimista. Sou realista"
Foco nos 5% a 6% de indecisos
Para Berzoini, nessa reta final é preciso focar na parcela de eleitores ainda indecisos, que hoje, pelas suas avaliações, estaria entre 5% a 6%. E, nesse sentido, avalia ele, o foco da campanha não pode estar na militância tradicional petista. Esses votos já estão conquistados. Mas ganhar os corações e mentes de quem ainda não se definiu. "Se alguém a essa altura ainda não definiu em quem votará, é preciso descobrir qual é a razão dessa indefinição. Qual a resistência que há e trabalhar isso".
Voto não é tão ideológico. "Não tem dono"
A resistência de quem está indefinido, avalia Ricardo Berzoini, trabalha contra e a favor. Esse eleitor tem suas razões para não escolher de imediato Lula. Mas tem suas razões para não escolher Flávio Bolsonaro. Se Lula tem uma rejeição alta, conforme as pesquisas, Flávio também tem. Até maior. Poderia ser um complicador o fato de todos os adversários de Lula desta vez pertencerem a um campo mais conservador. Mas o sentimento do eleitor não parece ser assim tão ideológico. "O voto não tem dono", observa Berzoini.
Houve certo salto alto
Segundo ele, o acompanhamento que teve de várias eleições mostra que nunca um candidato consegue transferir integralmente seus votos para aquele que eventualmente ele apoia no segundo turno. Mas Berzoini afirma que tem alertado para os riscos há algum tempo. Para ele, em alguns momentos teria havido certo salto alto quando pesquisas mostravam números mais positivos para Lula.
Próximo
"Nós sabemos que quando vão se aproximando as eleições as pesquisas começam a ficar mais próximas do resultado de fato", observa Berzoini. E era esse o alerta que fazia. Números mais favoráveis no passado poderiam ser enganosos. Lula, na verdade, não disputa contra Flávio Bolsonaro. Seu adversário é Jair, representado por Flávio.
Trump
Um outro fator que merece atenção, segundo Berzoini, é a pressão que deve ser exercida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para ele, já está mais do que claro que essa pressão já está acontecendo e deverá se intensificar. "Há diversos interesses em jogo", diz Berzoini. "Desde terras raras até o Pix e o controle das big techs".
Doutrina Donroe
Isso leva àquilo que o próprio Trump batizou de "Doutrina Donroe", sua visão particular da Doutrina Monroe de "América para os americanos". Busca estabelecer governos que se alinhem aos seus interesses no continente. "Hoje, só nós, o Brasil, e o Uruguai, resistimos a esse crescimento da direita no continente", observa Ricardo Berzoini.
Melhorou
Na avaliação de Berzoini, no entanto, a propaganda eleitoral de Lula melhorou. Para ele, Lula vinha até há algum tempo muito focado em dizer o que tinha feito ao longo da sua trajetória política e nos três governos. Precisava, com mais clareza, projetar o que pretende fazer num quarto governo. E diferenciar isso das propostas adversárias.
Eixos
Berzoini identifica alguns eixos principais de estratégia para essa reta final. "Precisamos avançar ainda mais em Minas Gerais, ampliar mais no Nordeste, crescer no Rio Grande do Sul e em São Paulo". Pesquisa AtlasIntel nesta quarta (23) mostra vantagem de Lula em Minas. Ela aparece com 48,8% no primeiro turno contra 43,4% de Flávio.
São Paulo
No segundo turno, Lula em Minas vai a 51,5% contra 48,5% de Flávio. Em São Paulo, também a AtlasIntel nesta quarta mostra algum crescimento de ambos, maior, porém, de Flávio. Com relação à rodada anterior, Flávio foi de 39,9% para 45,1%. Lula foi de 36% para 39,8%. A vantagem de Flávio é de 5,3 pontos. Como diz o locutor: "Haja coração!"
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