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Briga com Michelle interrompe busca da direita por voto feminino

Briga com Michelle interrompe busca da direita por voto feminino
Damares e Michelle trabalharam atração feminina Crédito: Divulgação/Damares

Para além dos ataques, o que mais irrita Michelle Bolsonaro e suas aliadas, como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), é o risco de interrupção de um trabalho que vinha sendo feito desde 2018 para a consolidação do voto feminino de direita no país. Curiosamente, a primeira constatação de como era o perfil da mulher eleitora brasileira veio de um trabalho da esquerda: a formação do CadÚnico, o cadastro que organiza as famílias que têm direito ao Bolsa Família e aos demais benefícios sociais. O cadastro mostrou que a maior parte das famílias de baixa renda hoje é comandada por mulheres. E a maioria dessas mulheres é conservadora, especialmente porque grande parte hoje está vinculada a alguma denominação evangélica e é a partir dela que se organiza na sua comunidade. Tratava-se de um público pronto para ser politicamente atraído pela direita.

 

Trabalho começou em 2022

Trabalho começou em 2022
Mulheres evangélicas comandam famílias de baixa renda Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

Candidato à reeleição em 2022, a equipe de Jair Bolsonaro constatou que a sua maior dificuldade estava na conquista do voto feminino. Montou-se, então, o movimento Mulheres com Bolsonaro, que teve Michelle e Damares Alves como principais expoentes. O movimento percorreu o Brasil, não apenas angariando apoios femininos para Bolsonaro, mas identificando mulheres que poderiam se tornar líderes políticas nas suas regiões. Michelle ainda não presidia o PL Mulher.

Pastoras e donas de casa

Conforme disse ao Correio Político uma pessoa que acompanhou de perto esse movimento, buscou-se nas diversas regiões mulheres que já exerciam liderança nas suas comunidades, embora em muitos casos talvez nem soubessem disso. Nos casos mais óbvios, pastoras evangélicas, presidentes de associações. Mas também donas de casa respeitadas pela vizinhança. O grupo começou a estimular essas mulheres a entrar na vida política. Michelle consegiu aumentar em mais de 40% a presença feminina no PL.

"Nós te daremos a mão"

"Nós sabemos que não vai ser um caminho fácil, que vai haver muitos desafios, mas nós te daremos a mão". De acordo a fonte, era esse o discurso feito por Michelle, Damares e outras para atrair as lideranças femininas. O grande problema a partir do desfecho no qual Michelle saiu do comando do PL Mulher seria: isso não aconteceu. Ao final, as decisões que prevaleceram acabaram sendo tomadas por homens.

Incompetência

Quando Flávio Bolsonaro afirma que o fato de não conquistar a maioria dos votos femininos acontece por falta de competência, ele não deixa de ter razão. De acordo com o último Censo, o Brasil tem hoje mais de 25 milhões de mulheres evangélicas. Elas representam de 50 a 60% do total de pessoas que têm essa religião. Se ele lidera entre os evangélicos, há um problema.

Figueiredo

Michelle ficou com a desconfiança de que Paulo Figueiredo era ali uma espécie de ventríloquo do seu enteado, embora Flávio tenha depois desautorizado o neto do último general da ditadura. Se Michelle está certa e o raciocínio misógino predomina, ignora o candidato do PL um cálculo político que é mais que óbvio.

Decisivas

Somando-se tudo, mulheres comandam a maioria das famílias de baixa renda. Na maioria, são evangélicas. Entre os evangélicos, elas são maioria. Paulo Figueiredo está, assim, recomendando que se ignore o trabalho de conquista de um eleitorado que vai decidir o pleito de outubro. Ou seja, seu raciocínio significa derrota.

Maridos

A estupidez do raciocínio de Paulo Figueiredo, no caso, prosseguiria mesmo na sugestão de que mulheres casadas votariam melhor que as solteiras porque seguiriam a ordem política dada pelo marido. Voltando aos dados do Censo, 51% dos lares brasileiros hoje são comandados por mulheres. Não há maridos. Todas as decisões são delas.

Baixa renda

Esse percentual, segundo ainda o Censo, é maior na população de baixa renda. Entre as famílias hoje comandadas por mulheres, 69,9% vivem com uma renda domiciliar até um salário mínimo. Ao contrário do achismo do voto errado nos Estados Unidos, esses números são estatística. Essas mulheres são as donas dos seus votos.

Dispensa

Assim, se a maior parte dessas mulheres hoje apoiam, segundo o que dizem as pesquisas, a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, isso talvez não seja porque são, na sua maioria, de esquerda. Mas porque o segmento de direita da política, com o qual boa parte delas talvez mais se identificasse, simplesmente dispensa o seu voto.