Correio da Manhã
CORREIO POLÍTICO

Esquemas do Master são um só. Ou se complementam

Esquemas do Master são um só. Ou se complementam
Curiosamente, logo remete às pirâmides Crédito: Divulgação/Banco Master

No Correio Polícia da edição de fim de semana, dissemos que, em resumo, as maiores irregularidades investigadas com relação ao Banco Master baseiam-se em dois esquemas: a criação de uma espécie de pirâmide financeira com CDBs de rentabilidade estratosférica e a criação de empréstimos consignados fantasmas para engordar a carteira de crédito do banco. Os técnicos da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, que vêm acompanhando o caso há tempos, no entanto, avaliam que, no fundo, talvez seja o mesmo esquema. Ou, pelo menos, esquemas que se complementam. Em algum momento, o banco de Daniel Vorcaro precisou se amparar nos consignados por saber que a pirâmide tinha vida curta.

 

Orientações de dentro do BC

Muitas das orientações, nesse sentido, desconfia-se que vieram de dentro do próprio Banco Central. No elo montado ali com a participação do ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza. O esquema com CDBs estouraria em algum momento. Para que o banco não quebrasse, não viesse a sofrer sanções das autoridades financeiras, ele precisa apresentar sinais de liquidez, de credibilidade, de previsibilidade.

Dinheiro, de preferência público

Dinheiro, de preferência público
BRB é que ia ficar no final com o Mico Crédito: Reuters/Adriano Machado

Em resumo, precisava de dinheiro. E, de preferência, dinheiro público. É a partir daí que Vorcaro parte em busca dos empréstimos consignados de servidores públicos, ativos e aposentados. Um modelo que se inicia quando se torna sócio de Augusto Lima, que tinha adquirido do governo da Bahia a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que virou o CredCesta. Guga Lima levou os consignados para o Master. Não necessariamente fajutos, no início. Mas, depois, inserir consignados falsos engordou a carteira de crédito do banco.

Fundos de previdência

O Correio da Manhã mostrou em reportagens como isso envolveu professores da rede estadual de ensino da Bahia. Mas não apenas eles. Outros servidores também. E em outros estados. Um dos casos relatados nas reportagens, por exemplo, envolveu um policial militar do Distrito Federal. E, além dos servidores ativos, os fundos de previdência de estados e municípios.

21 fundos

Assim, a partir da experiência inicial do CredCesta, o Master passou a gerir consignados com nada menos que 21 fundos de Previdência, de estados e municípios. No total, fala-se de um rombo com esses fundos da ordem de R$ 1,8 bilhão. Em alguns casos, o lastro foram Letras Financeiras da própria instituição.

Sem garantia

Essas Letras Financeiras não são cobertas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), um sistema dos próprios bancos e instituições financeiras para ressarcir operações. Daí, o rombo. No fundo, todo o modelo de negócios do Master, se não fraudulento, era extremamente arriscado e fadado a dar errado.

Sequência

Assim, forma-se a sequência dos esquemas. Manter a pirâmide partia da ideia de dizer ao investidor que havia a garantia do FGC para dar tranquilidade de que não perderia a grana. Daí a "emenda Master" do senador Ciro Nogueira (PP-PI), aumentando o valor garantido pelo fundo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

Consignados

Os consignados davam liquidez. Mas, pelo visto, nem tanto. O Master, então, trata de procurar se vender para outro banco. Precisava que essa venda viesse num valor alto o suficiente para cobrir a quebradeira da pirâmide. Tratou, daí, de engordar substancialmente essa carteira de créditos com consignados que não existiam.

Mico

Era o clássico Jogo do Mico. Mas o Master colocou bilhões de reais em Micos no seu jogo. Primeiro, tentou a Caixa Econômica Federal. Que identificou os Micos e não fechou o negócio. Foi, então, para o Banco de Brasília (BRB). Que, tudo indica, não estava entrando tão inocente no negócio. Sabia do risco.

Espanto

O que espanta é como Daniel Vorcaro tenha sido tratado como um mago do mundo financeiro. Como tenha conseguido enriquecer tanto e criar rede tão impressionante de relacionamentos. Mas, pensando bem, talvez seja o inverso: é por conta da rede que criou que talvez tenha enriquecido tanto.