Otoni de Paula

"Se houve traição, não foi da minha parte", diz o ex-bolsonarista Otoni de Paula

"Se houve traição, não foi da minha parte", diz o ex-bolsonarista Otoni de Paula
O deputado Otoni de Paula (PSD) concedeu entrevista exclusiva ao Correio da Manhã Crédito: Reprodução

O deputado federal Otoni de Paula (PSD) acusou o senador Flávio Bolsonaro (PL) de traí-lo e afirmou que foi empurrado para fora do bolsonarismo após romper com a família do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em entrevista à coluna, o parlamentar, que declarou apoio à reeleição de Lula (PT), disse que Flávio é um "crente fake", criticou a influência de líderes religiosos sobre o eleitorado evangélico e revelou que está organizando uma mobilização cristã em favor do candidato petista no segundo turno.

O senhor apoiava Jair Bolsonaro e mudou para Lula. Atribui a essa mudança o fato de não ter conseguido se reeleger na eleição deste ano?

Essa mudança de consciência foi muito mais do que uma mudança política. Eu acredito numa verdadeira libertação de consciência. Olhei para mim, me vi diferente da minha essência, fiz uma autocrítica, não a Jair Bolsonaro, e percebi que não estava mais me reconhecendo enquanto pessoa, enquanto ser humano.

Nesse período, eu era candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo MDB. A família Bolsonaro entendeu que eu não deveria ser candidato, sentou com o MDB Nacional e me impediu de disputar a eleição.

Naquele momento, para não romper, pedi ao senador Flávio Bolsonaro que reunisse a imprensa.

Mas eu tenho brilho, sabe, Paulo? E resolvi hipotecar meu apoio ao ex-prefeito Eduardo Paes.

Quando declarei apoio a ele, começou a máquina bolsonarista de triturar reputações. Começaram a dizer que eu era traidor, traidor, traidor. Logo em seguida, estive no Palácio e fiz uma oração por Lula. A situação piorou ainda mais.

Eu não tive outro caminho. Fui empurrado para fora do bolsonarismo. Se alguém traiu alguém, não fui eu. Foi o senador Flávio, foi a estrutura do bolsonarismo.

Mas, antes mesmo do final do primeiro turno, o senhor declarou apoio e voto no presidente Lula.

Naquele momento, fiz dois movimentos. Primeiro, disse que, se Caiado não fosse para o segundo turno, declararia meu apoio a Lula. Por que tive coragem de falar, já no primeiro turno, qual seria meu movimento no segundo? Porque eu não nasci para ser canalha, não nasci para o estelionato eleitoral.

Então eu disse: "Olha, no segundo turno, continuando a polarização, ou seja, meu candidato Caiado não indo, eu apoio Lula".

Por que Lula tem tanta dificuldade em entrar no segmento evangélico?

Eu tenho duas explicações. A primeira é que a esquerda, de alguns anos para cá, se permitiu ser o berçário de uma esquerda identitária, que não é a essência da verdadeira esquerda, cuja essência é trabalhista, de justiça social e defesa dos direitos do trabalhador.

Ela se transformou em um berçário de uma extrema esquerda identitária, cujas pautas colidem com os princípios morais da igreja. Esse é o primeiro ponto.

Qual é o segundo ponto?

Os pastores nos ensinaram a odiar Lula. Qual é a essência do evangelho? É a palavra, é a pregação. Aliás, essa é a grande diferença entre uma igreja evangélica e uma igreja católica: o poder da pregação, a desenvoltura da nossa liderança e o poder de convencimento dos nossos pastores.

E, de um tempo para cá, pastores — não estou falando da grande massa, dos mais de 98% que são homens sérios, trabalhadores, mas das grandes estrelas, como Silas Malafaia, Rodovalho, Valadão, essa turma.

O que Bolsonaro deu a eles que Lula nunca deu? Bolsonaro deu a eles o cheiro do poder, o tapete vermelho do Palácio.

Malafaia diz que o discurso de Janja atrapalha Lula e afasta o eleitorado evangélico. Ele tem razão?

Quem deve julgar isso é o próprio governo. Acho que Janja é vítima de uma falta de simpatia natural daqueles que já não gostam de Lula.

Quem não gosta de Lula transfere essa antipatia à Janja. A culpa nem é tanto da figura dela. Ela é o para-raios de uma antipatia que uma parte considerável da igreja tem ao seu marido.

Poderia ser ela, poderia ser Lulinha, poderia ser quem fosse. Se fosse ligado a Lula e fizesse algum aceno à igreja, teria essa antipatia.

Então, não concordo. Pelo contrário, acho que a primeira-dama está fazendo esforços para tentar ser simpática.

Ela nunca disse que gostava de crente, que era apaixonada por crente. Nunca tentou se apresentar de forma falsa, leviana, no nosso meio. Ela foi muito sincera.

Qual é o papel que o senhor está tendo na campanha de Lula, principalmente neste segundo turno?

O papel, primeiro, é de contenção dos votos evangélicos, dos indecisos evangélicos. Você tem ali um núcleo de maioria dura que não se move. Ali é Flávio Bolsonaro, é a família Bolsonaro, é Deus que os ungiu e pronto. Você não convence aquele povo.

E quem não vota é traidor, é endemoniado, não vai para o céu. Porque chegamos a esse ponto na igreja hoje. Jesus te salva, mas Bolsonaro te valida. Não basta você ter aceitado Jesus, tem que aceitar Jesus e votar em Bolsonaro para sua salvação ser realmente confirmada.

Isso é um bezerro de ouro que levantamos na igreja. É muito triste. O bolsonarismo criou uma onda de desigrejados.

Aliás, é nisso que também estamos colaborando na campanha de Lula. Estamos começando agora um exército de Lula, mas um exército cristão.

Diferentemente do exército que meu colega deputado Janones criou, estamos criando um exército do povo de Deus, unindo católicos e evangélicos em um grupo de WhatsApp, sem mentiras, falando a verdade, mostrando quem é Flávio Bolsonaro.

Flávio não é nosso irmão. Flávio é um crente fake.

Por quê?

Primeiro, tenho amigos aqui de Brasília que são da tal igreja. E digo "tal igreja", com muito respeito, para não citar o nome da igreja nem de nenhum pastor, que são pessoas por quem tenho muito respeito.

Já perguntei: "Rapaz, o Flávio é membro?". Flávio não é membro de lugar nenhum, meu irmão. Flávio nunca foi membro de nenhuma igreja do Rio de Janeiro.

Flávio, até pouco tempo atrás, estava fumando vape. Crente não fuma vape.

Mas, de repente, quando o pai diz "você é candidato a presidente", lá vai Flávio se batizar. Ele já se batizou três vezes. O crente só se batiza uma vez. Ele já foi três vezes.

Então, ele é um crente fabricado, porque sabe que enganar a igreja é muito fácil. E nosso papel é mostrar que Flávio Bolsonaro representa um risco para a igreja.