Corte italiana diz que Moraes suprimiu relatório que apontava acusador "mitomaníaco" de Zambelli

Magistrados italianos afirmaram que relatório teria sido "suprimido" durante processo conduzido no Brasil

Por Lucas Gayoso e Paulo Cappelli

Alexandre de Moraes e Carla Zambelli

A Corte Suprema de Cassação da Itália registrou em decisão que o ministro Alexandre de Moraes (STF) teria “suprimido” um relatório da polícia brasileira que apontava inexistência de contatos entre a ex-deputada Carla Zambelli e um dos principais acusadores do caso, o hacker Walter Delgatti Neto, descrito no documento como alguém com “traços de mitomania”. A referência consta no acórdão que anulou o pedido de extradição apresentado pelo Brasil contra a ex-parlamentar.

O documento foi assinado em 22 de maio deste ano. Na decisão, os magistrados italianos reproduzem argumentos apresentados pela defesa de Zambelli e afirmam que o relatório teria sido produzido no âmbito de investigações ligadas a uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Brasil.

Segundo o relato registrado pela Corte, o material apontaria ausência de vínculos entre Zambelli e o acusador identificado pelas iniciais “W.D.N.”. As iniciais coincidem com as de Walter Delgatti Neto, hacker que afirmou à CPI dos Atos Golpistas que a então deputada teria ordenado a invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para demonstrar supostas vulnerabilidades do Judiciário.

O texto também menciona que o documento atribuía ao denunciante “propensão à calúnia e à manipulação de informações”.

“Tal relatório [...] destacava a propensão de W.D.N. à calúnia e à manipulação de informações, bem como a inexistência de relações, inclusive em nível informático, com a recorrente”, diz trecho do acórdão.

A expressão “traços de mitomania” é utilizada para descrever comportamento associado à mentira compulsiva ou patológica. Pessoas classificadas dessa forma costumam apresentar tendência recorrente à distorção de fatos e à criação de narrativas falsas ou fantasiosas.

O acórdão não revela a identidade completa da pessoa mencionada nem detalha qual teria sido exatamente seu papel no processo brasileiro. A Corte italiana também não afirma se as alegações apresentadas pela defesa foram comprovadas, apenas registra os argumentos como parte da fundamentação que levou o tribunal a rejeitar a extradição.

Na decisão, os magistrados italianos concluíram que havia indícios de comprometimento da imparcialidade objetiva do processo conduzido no Brasil. O tribunal apontou que Moraes atuou em diferentes fases do caso, incluindo decisões cautelares, julgamento e atos relacionados ao pedido de extradição. Segundo o órgão, isso poderia comprometer garantias fundamentais do direito de defesa.

Ao final, a Corte anulou a autorização de extradição e determinou a libertação imediata de Zambelli, caso ela não estivesse presa por outro motivo.