Por que o MTC-300 pode enfrentar os coreanos
A estratégia comercial da J&F no mercado asiático foca no destravamento de garantias financeiras e na flexibilidade diplomática enquanto o limite de 300 km do MTCR molda o design físico e digital do MTC-300 para o cumprimento rigoroso dos tratados internacionais de não proliferação.
A concorrência neste segmento tem nome e sobrenome : Coreia do Sul. O país tornou-se o maior "trator" de vendas de defesa na Ásia e no Leste Europeu. O sistema de mísseis sul-coreano KTSSM e os lançadores K239 Chunmoo competem diretamente com o ASTROS/MTC-300. Para vencê-los no Sudeste Asiático (em países como Malásia e Indonésia), os irmãos Batista utilizam a força de sua holding:
O enfrentamento ocorre a partir da dimensão planetária do grupo. Governos não compram mísseis sem apólices de seguro que garantam a entrega. A Avibras em recuperação judicial não conseguia essas garantias, perdendo contratos para a Hanwha. A J&F soluciona isso injetando seu próprio balanço bilionário como fiador internacional das operações, permitindo que a Avibras volte a vencer licitações pesadas.
A Coreia do Sul depende fortemente de patentes, chips e componentes dos EUA (sujeitos ao veto do governo americano via ITAR). A J&F vende o ecossistema da Avibras oferecendo maior flexibilidade para a montagem de fábricas locais e customização de softwares nas nações do Sudeste Asiático, livre de restrições de terceiros. Além disso tem o amigo Trump, que com uma canetada pode reduzir e até sufocar o suprimento dos coreanos.
Além da amizade com Lula os irmãos Batistas conversam bem com o senador Flavio Bolsonaro. Não há riscos políticos no horizonte. O Brasil é visto na Ásia como um parceiro puramente comercial e diplomaticamente neutro. A J&F explora essa imagem vendendo uma solução de defesa que não obriga o país comprador a se alinhar geopoliticamente nem com o bloco EUA/Seul e nem com a China.
MTC-300, a joia da Coroa do negócio Avibras
O Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (MTCR) é um tratado internacional que proíbe a exportação de mísseis que carreguem mais de 500 kg de carga útil a distâncias superiores a 300 km. Essa regra moldou fisicamente o design do míssil da Avibras:
Para garantir o cumprimento do tratado nas versões de exportação, o MTC-300 possui limitações no tamanho dos tanques ou travas digitais de software no gerenciamento do motor turbojato (TJ1000). O míssil é programado para consumir ou esgotar sua energia ao atingir exatamente o limite regulatório, impedindo que o comprador altere o alcance de forma caseira.
O MTCR permite mísseis de 300 km desde que a ogiva não passe de 500 kg. A Avibras otimizou o design do MTC-300 equipando-o com uma ogiva de cerca de 200 kg de explosivos de alta fragmentação. Ao diminuir o peso da bomba, o míssil ganha eficiência aerodinâmica para voar de forma estável dentro do limite exato permitido, maximizando a precisão sem violar o tratado.
Como não pode competir em distância extrema devido à trava dos 300 km, o MTC-300 foi desenhado para voar baixo (perfil sea-skimming ou acompanhamento de terreno), utilizando asas retráteis. O foco do design mudou de "ir mais longe" para "ir mais baixo e ser invisível ao radar", tornando-o competitivo frente aos mísseis balísticos que sobem muito alto e são detectados facilmente.
O subsegmento de mísseis de cruzeiro movimenta cerca de US$ 4,76 bilhões. Devido ao aumento das tensões geopolíticas globais, esse nicho cresce a uma taxa anual (CAGR) de 7,16%, com projeção de atingir US$ 7,22 bilhões até 2032.
Dentro do mercado de cruzeiro, a tecnologia subsônica (exatamente a adotada pelo MTC-300 brasileiro, que voa abaixo da velocidade do som para priorizar o alcance de 300 km) responde por 62% de todas as vendas mundiais.
O MTC-300 nos submarinos nucleares
A Marinha Brasileira quer utilizar mísseis da Avibras adaptados, mais especificamente a versão navalizada do MTC-300 (Míssil Tático de Cruzeiro). No entanto, para o momento do lançamento e primeiros anos de operação do submarino nuclear Álvaro Alberto, as armas principais de fábrica serão os mísseis Exocet da empresa francesa MBDA.
Com a injeção de capital dos irmãos Batista na Avibras poderá financiar a engenharia complexa da conversão para uso naval. Para um míssil ser lançado por um submarino, ele precisa ser colocado dentro de uma cápsula estanque que resiste à pressão da água. O submarino dispara a cápsula pelo tubo de torpedo; ela sobe até a superfície, abre-se e o míssil da Avibras aciona o motor para voar.
Exocet SM39 (França): Estima-se que cada unidade custe entre US$ 4 milhões e US$ 5 milhões. Trata-se de uma arma cara devido à engenharia necessária para o lançamento subaquático encapsulado. Em um lote histórico de compras da Marinha brasileira junto à MBDA France, o pacote de mísseis navais e treinamento custou 131,7 milhões de euros. O MTC-300 / AV-TM 300 (Avibras / J&F) o custo unitário estimado para a versão terrestre do míssil de cruzeiro brasileiro gira em torno de US$ 1 milhão por unidade. É um valor substancialmente menor que os concorrentes estrangeiros. Contudo, o desenvolvimento de sua futura versão naval encapsulada exigirá investimentos adicionais de engenharia por parte da Avibras para torná-lo compatível com os tubos de torpedo. Estando pronto para uso naval o míssel brasileiro ficará competitivo para num novo segmento de mercado.
LEIA TAMBÉM: Da proteína aos mísseis: o poder de fogo mundial dos irmãos Batista após a compra da Avibras