O dia 21 de agosto entrará para história dos grandes negócios realizados no Brasil. O curioso é que apenas três dias separam de outra data relevante, o 19 de agosto, dia oficial da Fundação da Embraer, hoje o maior símbolo da capacidade industrial e tecnológica do Brasil.
Na sexta-feira passada (21), foi distribuído o comunicado oficial confirmando que a Globe Investimentos, veículo dos investimentos pessoais dos empresários Joesley e Wesley Batista, assinou contrato para adquirir a totalidade da Avibras Aeroco, empresa que reúne ativos estratégicos, instalações industriais e o portfólio tecnológico da Avibras Indústria Aeroespacial. Uma transação divulgada com o objetivo de dar sustentação à recente retomada das operações da Avibras, preservar sua capacidade tecnológica e industrial e criar as condições necessárias para que a companhia volte a crescer de forma sustentável nos mercados brasileiro e internacional. Poucas análises surgiram travando o aspecto histórico desta investida.
Para o Brasil, este anúncio terá, nos próximos anos, um reflexo bilionário na geração de divisas e a colocação do país como player global no fechado mercado da indústria da defesa.
Brasil virará player global
Em termos práticos, o Brasil está deixando de ser uma "potência regional" na América Latina para se consolidar como um player global indispensável. O país passará a exportar não apenas commodities, mas segurança, dissuasão e alta tecnologia de valor agregado, o que já ocorre com a Embraer na área da aviação executiva, comercial e da própria defesa.
A Base Industrial de Defesa (BID) do Brasil projeta um crescimento financeiro expressivo para os próximos anos, impulsionado pela estabilidade operacional de grandes fabricantes e pela abertura de novos mercados pela diplomacia.
O efeito Batista na defesa
A entrada do capital dos irmãos Batista na Avibras zera o faturamento reprimido da empresa. A estimativa é de que a fabricante de mísseis e foguetes sozinha adicione entre US$ 400 milhões e US$ 700 milhões anuais ao balanço de exportações da BID, a partir do momento em que os contratos com o Oriente Médio forem reativados.
Alta rentabilidade
A transição de exportações de produtos de baixa tecnologia (como munições comuns) para sistemas de alto valor agregado (mísseis guiados, aeronaves e radares) elevará a margem líquida média da indústria de defesa brasileira para a faixa de 18% a 22%.
Fonte de riqueza
O faturamento da BID brasileira, que atualmente orbita entre 3,5% e 4% do PIB nacional, deve passar por um salto quantitativo sustentado pela resolução de crises financeiras do setor e pela entrega de grandes contratos internacionais.
Diplomacia brasileira de resultados
O Ministério da Defesa, em coordenação com o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), mapeou três regiões prioritárias para a expansão comercial imediata dos produtos brasileiros do BID.
A Indonésia e a Malásia são dois países que já operam o Sistema ASTROS terrestre e negociam a compra de novos lotes de foguetes integrados à cadeia logística da J&F.
Com a Índia, a diplomacia brasileira costura acordos bilaterais de codevolvimento. O foco indiano está na aquisição de aeronaves de reabastecimento e transporte KC-390 Millennium da Embraer para substituir sua frota antiga de fabricação russa (Antonov).
Com a expansão da OTAN no Leste Europeu, a Bulgária, Polônia e Romênia, sob a pressão da guerra na Europa Oriental, obrigam as nações vizinhas a rearmar suas forças rapidamente. A diplomacia vende o Brasil como um fornecedor ágil e livre de filas de espera das superpotências. A Polônia estuda blindados sobre rodas da Iveco/Exército Brasileiro (Guarani) e sistemas de controle de fronteiras, além dos mísseis da Avibrás.
Com a segurança jurídica restaurada na Avibras, a diplomacia focará em fechar a venda casada de baterias de artilharia pesada e mísseis de cruzeiro MTC-300 com travas regulatórias de 300 km adequadas ao tratado MTCR com a Arábia Saudita e o Catar.
O contrato mais avançado está com o Egito, com negociações avançadas para modernização de frotas de defesa com inclusão de tecnologia aeroespacial brasileira.
Um oportunidade ímpar para os irmãos Batista
Os valores investidos na compra e saneamento da Avibras (os R$ 300 milhões emergenciais e o passivo de cerca de R$ 800 milhões) são considerados baixíssimos quando comparados ao tamanho dos contratos internacionais que a empresa pode fechar rapidamente no mercado de defesa.
No setor militar global, uma única venda de grande porte pode pagar todo o investimento dos irmãos Batista com sobra. O retorno financeiro tende a ser rápido, devido a contratos já em curso.
Antes de entrar em crise, a Avibras negociava um contrato estimado em mais de US$ 600 milhões (cerca de R$ 3,3 bilhões) com o governo da Arábia Saudita para o fornecimento de novas baterias do Sistema ASTROS e veículos de comando. Os sauditas não o assinaram porque a empresa corria o risco de quebrar e não entregar as armas. Com a J&F garantindo a fabricação, esse contrato pode ser destravado rapidamente, faturando, de uma só vez, o triplo do que custou para assumir a companhia.
Como exemplo, um negócio de uma única bateria completa do Sistema ASTROS II Mk6 (composta por veículos lançadores, veículos de recarga, carros de comando e radar de tiro) custa, no mercado internacional, algo entre US$ 60 milhões e US$ 100 milhões.
Retorno rápido: Se a nova Avibras fechar a venda de apenas duas ou três baterias para clientes tradicionais (como o Catar, a Indonésia ou o Egito), o faturamento bruto gerado cobre integralmente todas as dívidas trabalhistas e os aportes de retomada da empresa. O que faltava à companhia era credibilidade financeira, estabilidade de produção e força política, fatores que os irmãos Batista trazem, incluindo o relacionamento pessoal com o presidente norte-americano Donald Trump. Uma amizade que abre portas, inclusive para destravar negócios com os sauditas. Quem no planeta teria condições de assumir um negócio estratégico no Brasil com um horizonte tão vasto de oportunidades, com o setor de Defesa turbinado pelos conflitos globais?
O mercado milionário de mísseis
Se veículos lançadores duram décadas, mais os foguetes e os mísseis MTC-300, a joia da coroa da Avibras, são munições consumíveis. Cada míssil de cruzeiro comercializado no mercado internacional por aproximadamente US$ 1 milhão a US$ 1,5 milhão carrega uma margem de lucro líquido muito superior à de setores tradicionais da J&F, como o de alimentos. Países que compram o sistema costumam estocar centenas dessas munições de alta tecnologia, ainda mais em período de conflito global.
Do ponto de vista de fusões e aquisições (M&A), os irmãos Batista realizaram uma jogada de mestre: compraram uma das empresas de tecnologia militar mais importantes do hemisfério sul a "preço de liquidação", simplesmente porque ela tinha um problema crônico de fluxo de caixa que a holding J&F tem capacidade de resolver imediatamente.
Amizade com Trump, uma carta na manga
A estreita relação entre os irmãos Batista e o presidente dos EUA, Donald Trump, é amplamente conhecida, e a entrada do grupo na área de defesa adiciona um novo e complexo componente geopolítico que estende esse canal de influência além do setor de commodities alimentares.
Por meio da controlada Pilgrim's Pride (subsidiária da JBS), o grupo foi o maior doador individual da cerimônia de posse de Trump, com um aporte de US$ 5 milhões.
A relação de amizade reduz, mas não elimina, o risco de barreiras diplomáticas de Washington contra as vendas do sistema de mísseis e foguetes brasileiros para clientes tradicionais, como os países do Oriente Médio. Foi uma conjunção planetária que juntou interesses e soluções, com a capacidade de turbinar o Brasil em um setor fechado e bilionário. Se 19 de agosto entrou para a história com a data da fundação da Embraer, o 21 será lembrado como o maior passo do Brasil na indústria de defesa. Um salto quântico para o país, e feito com brasileiros.
LEIA TAMBÉM: Por que o MTC-300 pode enfrentar os coreanos
*Diretor de Redação do Correio da Manhã
Menu