Todos sabem do carinho do Governador Ricardo Couto com a UERJ e a sua luta para atender as reposições de salários da universidade. É de extrema ousadia que uma empresa vença com proposta fraudada e, ao corrigir os números, vai custar mais caro que todas as concorrentes, caso seja contratada pela UERJ.
Uma licitação de R$ 23,2 milhões anuais de dinheiro público na Universidade do Estado do Rio de Janeiro pode estar sendo entregue a uma empresa que ganhou na irregularidade — e que, quando obrigada a apresentar os números corretos, ficará mais cara do que todas as outras. A empresa se chama MULTIPLY. E o mais absurdo: quando a UERJ pediu que ela corrigisse um erro na proposta, ela se recusou. Mesmo assim, foi aprovada.
Em licitações de mão de obra terceirizada, as empresas precisam apresentar uma planilha com todos os custos: salários, encargos, benefícios. Essa planilha tem que ser feita com base na tabela salarial atual da categoria, o que os trabalhadores têm direito a receber hoje. A MULTIPLY entregou a proposta usando uma tabela já vencida, substituída por uma mais recente registrada em maio de 2026. Com isso, ela calculou salários e encargos mais baratos do que o que a lei trabalhista exige, ficando com o preço mais baixo na concorrência. É como se, numa licitação de merenda escolar, uma empresa ganhasse porque calculou o preço do quilo da carne com tabela de três anos atrás.
Se a planilha fosse corrigida para os valores que a lei trabalhista vigente exige — o que a própria empresa admitiu ser necessário —, o preço subiria quase 7%, ultrapassando as propostas das concorrentes que fizeram tudo certo desde o início. Isso significa três coisas ao mesmo tempo: a MULTIPLY venceu com uma vantagem que não existe na prática, as outras empresas foram prejudicadas por terem sido honestas, e a UERJ, ou seja, o contribuinte, vai pagar mais caro no final das contas, quando a empresa vier cobrar o reajuste que ela mesma já sinalizou que vai exigir.
A própria consultoria jurídica da UERJ disse: isso é irregular. A Procuradoria da universidade analisou o caso e foi direta: proposta feita com tabela vencida compromete a comparação entre as empresas e abre caminho para que a vencedora volte depois pedindo reajuste, com a conta caindo no bolso da universidade, ou seja, do dinheiro público.
A orientação foi clara: a MULTIPLY poderia ser aproveitada se, e somente se, corrigisse a planilha usando a tabela atual, sem aumentar o preço total da proposta.
Notificada para corrigir, a MULTIPLY respondeu que seria impossível adequar os números sem aumentar o valor. Em outras palavras: admitiu que a proposta não sustenta os custos reais. E aí vem o absurdo: propôs resolver isso depois de assinar o contrato, via repactuação. Traduzindo: vença a licitação com preço baixo agora e peça aumento logo depois.
E a UERJ aprovou mesmo assim
Apesar da recusa da empresa e da própria orientação jurídica interna, a reitoria em exercício autorizou a habilitação da MULTIPLY em 25 de junho de 2026. No meio do caminho, um despacho que chegou a aprovar a situação foi cancelado no dia seguinte com a justificativa de "orientação prestada de forma equivocada". Outros dois documentos internos declararam que a questão da tabela estava "superada" sem que ninguém explicasse como.
As outras empresas que participaram da concorrência calcularam suas propostas do jeito certo, com a tabela atual. Elas ficaram com preços mais altos, não porque são piores, mas porque foram honestas. E perde o trabalhador, que pode ser contratado por uma empresa que já entrou no contrato sabendo que não consegue pagar o que deve.
E perde o contribuinte, que financia a UERJ e pode ser chamado a cobrir o rombo quando a repactuação chegar, transformando o aparente menor preço em uma contratação mais cara do que qualquer outra proposta apresentada. O caso ainda pode ser revertido. A licitação entrou na fase de recursos, e outras empresas têm o direito de contestar. Os órgãos de controle, como o TCE-RJ e o TCU, também podem ser acionados. Com a mão moralizadora de Couto e o carinho dele com a UERJ chega ser ousada a postura da instituição de ensino superior que, se continuar assim, será reprovada no quesito probidade.
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